Quem és tu que apontas o dedo?

Apontar o dedo aos alegados erros do passado, utilizando uma eficaz máquina de propaganda é insistir na ilusão pura e tão facilmente desmontável, própria de quem não sabe, ou ainda não aprendeu, a brilhar com ideias próprias, com projetos concretos e a mostrar o compromisso e o empenho em querer servir, sem artifícios, uma população que anseia estabilidade, arrojo, confiança e qualidade de vida.

22 Ago 2018 / 02:00 H.

Tenho alguma dificuldade em aceitar as verborreias de gente que aponta sistematicamente as falhas, os erros e as omissões dos antecessores para que possam ser vistos, perante a população, como salvadores da Pátria, envoltos numa ridícula aura de sebastianismo, onde não pode faltar o nevoeiro espesso, que não deixa ver, nem quer deixar, a clareza das ideias, projetos, capacidades e viabilidade das mesmas.

Prometer mundos e fundos é fácil. Tentar enganar deliberadamente os eleitores, iludindo-os nesta febre do “um por todos e todos por um” é do melhor que existe em política. Criar inimigos externos para acicatar a fúria de um povo é uma tática mais velha que o Norte. Funcionou no passado, quando as hordas deixavam-se levar por discursos inflamados, gestos teatrais devidamente estudados e ofensivas dignas de uma qualquer cruzada sanguinária.

Controlar as elites e criticar os antecessores para poder brilhar também é uma das táticas mais básicas de sempre. Todos os fazem. Infelizmente. Em pleno Século XXI, continuam a ser passados atestados de estupidez a uma população cada vez mais ciente das suas escolhas e responsável pela eleição desses mesmos antecessores. Ou seja, ao criticar as opções feitas num passado recente, estão a dizer que as pessoas foram “burras”, “irresponsáveis” e “incapazes” de distinguir os verdadeiros salvadores dos chamados ilusionistas.

E nestes tempos modernos, utilizam-se as velhas manobras, na esperança de continuar a atirar areia para os olhos dos eleitores, quando estes querem a verdade.

Neste capítulo da verdade, a volatilidade é sempre uma constante. Por isso, é mais fácil e quiçá mais produtivo, continuar a apontar o dedo a erros do passado, quando devemos, em primeiro lugar, colocar-nos no tempo e no espaço em que esses supostos erros foram cometidos.

Dizer, por exemplo, que vivíamos numa época sem rumo não é de todo aceitável para quem consegue, com a isenção e a distância necessárias, analisar todas as condicionantes das diferentes épocas. Seria mais correto, no meu entender, dizer que cada qual tem o seu rumo, o seu Norte, as suas metas e que apesar de serem manifestamente diferentes das antecessoras, cada qual toma as suas decisões de acordo com as cartas que tem na mesa, a não ser que seja apologista das teorias da conspiração e acredite piamente que há homens e mulheres que conseguem viajar no tempo.

Apontar o dedo aos alegados erros do passado, utilizando uma eficaz máquina de propaganda é insistir na ilusão pura e tão facilmente desmontável, própria de quem não sabe, ou ainda não aprendeu, a brilhar com ideias próprias, com projetos concretos e a mostrar o compromisso e o empenho em querer servir, sem artifícios, uma população que anseia estabilidade, arrojo, confiança e qualidade de vida.

As decisões tomadas no passado foram aquelas que nos trouxeram até aqui. Todas as novas formas de pensar, fazer política, atuar, assentam numa base. Somos feitos do bom e do mau, sendo que esses adjetivos diferem da interpretação de cada um.

Numa época em que é vulgar apontar o dedo a torto e a direito, há que ter em conta a legitimidade daquilo que nos querem transmitir. De Aristóteles a Platão, sem esquecer Sócrates, muito se debateu sobre a moral, normalmente associada aos bons costumes que foram sofrendo mutações consoante a evolução das sociedades. A definição do “justo”, do “certo” e do “errado”, conceitos que fazem parte integrante da moral, têm acompanhado o progresso histórico da Humanidade, nas mais variadas áreas. Na Medicina, por exemplo, a partir de 1935 Egas Moniz implementou a lobotomia. Uma técnica portuguesa que depressa se tornou popular em muitos países. Naquela altura, era correto, utilizar esta descoberta da medicina para tratar doentes psiquiátricos. As sociedades, as instituições e as comunidades científicas aceitavam como normal e recomendável. Porém, hoje em dia, é considerada uma das técnicas mais abomináveis da história da medicina. Uma situação que demonstra a evolução intrínseca da mudança de valores éticos a par e passo com a evolução histórica.

O despertar de consciências passa, obrigatoriamente, pela capacidade de cada um em entender, perceber, questionar, avaliar e só depois julgar. Apontar o dedo é fácil. Criticar os antecessores ou os opositores para camuflar as próprias deficiências ou escamotear a realidade, é ainda mais fácil.

“Quem és tu que queres julgar, com vista que só alcança um palmo, coisas que estão a mil milhas?”, Dante Alighieri.

Sónia Silva Franco
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