Quando morre uma criança...

Custa-me crer que nada possa ser feito, não pode ser normal. Esta catástrofe humana que tem vitimado tantos devia cobrir de maldição os que têm poder para decidir e nada fazem

01 Mar 2018 / 02:00 H.

O Mundo cai na sua própria vergonha. Morrem milhares todos os dias na Síria e o Mundo continua, impávido e sereno, emaranhado nas suas burocracias e no seu egoísmo autista. É realmente estranho ver no que nos tornámos. Todos nós. Sem excepção. Ligamos a televisão , emocionamo-nos um pouco, às vezes mudamos de canal, outras viramos simplesmente a cara. Mas a chacina não pára. Bébés e crianças devorados pela ânsia de poder, trituradas pelo bulldozer da vida. Ninguém faz nada. Não querem saber. Assobiamos para o lado e voltamos para os nossos pequeninos problemas que nos afetam o dia à dia. A vizinha que fez isto, o jogo de futebol que perdemos, a televisão que não comprámos.

Temos o direito de ser assim. Ás vezes é mais fácil não ver, não sentir nem perceber. “É lá ao longe de qualquer forma tanto faz. É uma chatice mas eles que se entendam.E o pior são as criancinhas coitadas.” Onde será que nos perdemos neste caminho? O que será que nos tornou tão insensíveis , inóquos. Quem nos fez isto? Como é sequer possível que numa era de evolução, num tempo em que as mulheres lutam pela sua posição na sociedade contra os abusos e as desigualdades , quando toda a sociedade tenta abolir o racismo, a descriminação e outros males, quem luta verdadeiramente pelos mais novos?

Custa-me crer que nada possa ser feito, não pode ser normal. Esta catástrofe humana que tem vitimado tantos devia cobrir de maldição os que têm poder para decidir e nada fazem, os que se escondem atrás de leis e regras que deveriam servir para serem quebradas numa excepção deste calibre. O Mundo inteiro devia-se unir para evitar o que se está a passar. Guerras sangrentas, ataques com armas químicas? Como é que pudemos andar tanto para trás em tão pouco tempo? Onde pára o nosso dever cívico, quais são os nossos princípios, as nossas convicções as crenças que nos deviam tornar diferentes.

Eu sei que não é fácil abandonar a letargia reinante e os remorsos de sofá porque nos habituámos a isto. A ter pena, a lamentar mas a deixar passar incólume. Penso no entanto que este massacre atingiu proporções talvez superiores às que tantas vezes vimos retratadas em filmes “Hollywoodescos” das Guerras Mundiais. E não é caso isolado. Basta olhar para a Nigéria, para os Rohingya e tantos outros um pouco por toda a parte. Permitir que isto seja normal, habituarmo-nos a este modo de viver é deixar de lado o sentido de responsabilidade que nos devia acompanhar. Não há orgulho nisto. Ficamos todos mal na fotografia com especial enfoque nos que têm poder de decisão. Mais de 150.000 que nos deixam com as mãos banhadas em sangue e um vazio cá dentro.

Quando morre uma criança o Mundo fica cheio de nada. Perde a sua magia e o que de mais puro possa seguramente existir. Não podemos dormir tranquilos com este regresso ao passado. Por muito que já tenhamos problemas suficientes e que estes tempos não sejam fáceis , deixarmos que uma situação destas continue e se alastre é apagarmos aquilo que temos de bom dentro de nós. E temos obviamente. É altura de nos revoltarmos (eu incluído) e de “obrigarmos” com a nossa palavra, com a nossa indignação e as nossas atitudes a uma mudança profunda. Se a nossa essência nos faz defender os nossos filhos com forças inigualáveis está na hora de defendermos aqueles não têm ninguém em quem acreditar , que lutam por sobreviver. Sozinhos e abandonados na crueldade. Choram sem saber porquê... Quando morre uma criança morremos todos nós um pouco também.

José Paulo do Carmo
Outras Notícias