Qual é o propósito?

Nesta luta, muitas vezes impensada, de chegar ao fim de mais um dia a cumprir calendário, perdem-se valores, delapidam-se carácteres, somem-se convicções. São as coisas vulgares que tomam conta do dia a dia e da necessidade cada vez mais assustadora de consumir ou fazer acontecer, num passe de mágica, algo que nos traga aquela sensação de dever cumprido.

10 Jan 2018 / 02:00 H.

Sem tempo para analisar, refletir, pensar ou sentir profundamente. Vivemos numa corrida apressada para chegar ao fim de mais um dia, sem nos lembrarmos das pequenas coisas, simples gestos, ou agradecer, por momentos, o facto de pura e simplesmente termos chegado ao fim de mais esse dia. As emoções instantâneas levam-nos a viver no aqui, agora e já.

O tal “carpe diem” que tem mais significado do que revela a sua tradução à letra. Sim, é preciso aproveitar o dia, mas temos de saber separar a qualidade da quantidade e, acima de tudo, saber interpretar.

Exemplos não faltam sobre esta estranha forma de vida que vai engolindo e transformando a sociedade do Século XXI: são os miúdos que ficam entregues à babysitter da Internet, isolados naquele mundo online que tem tanto de maravilhoso, como de assustador,

- Ele não quer sair de casa. Está a jogar sossegado. Pelo menos, não anda a fazer asneiras...

São os idosos que se queixam, cada vez mais, das confraternizações familiares estranhas e distantes, onde todos estão concentrados nas suas mensagens, nos seus jogos ou nos vídeos dos gatinhos,

- És capaz de largar essa porcaria e falar com a avó?!

Sãos os telemóveis que substituem as conversas de café, sendo mais importantes do que a companhia dessa mesa e até mesmo do que a refeição,

- Olha, vamos fazer uma selfie! – As duas amigas refugiam-se naquele aparelhinho durante uns 20 minutos. Anunciam ao mundo a sua amizade bonita, através de uma fotografia que mostra caras sorridentes. Porém, deixam de falar uma com a outra e só voltam a dirigir palavra para as despedidas.

São os boatos e as bilhardices a ganhar força na intricada teia do consumo de informação, onde os juízos de valor transformam-se em sentenças inabaláveis,

- Está aqui a dizer que ele é culpado! Logo... Também acho! Devia demitir-se!

É a procura de soluções numa palete de comprimidos para “curar” um determinado comportamento alegadamente desviante,

- Olhe, doutor, o meu filho não consegue estudar. Ele não pára quieto... Pode receitar alguma coisa?

É o “enfardar” de informação duvidosa, sem colocar em causa a origem, o propósito e a veracidade e é o deixar-se seduzir por palavras que mais parecem saídas de um filme ao estilo do Braveheart,

- Ele diz que é preciso reinventar, mas creio que devemos começar pelo repensar...

São os estranhos q ue pedem amizade e que insistem em ser amigos, como se essa palavra tivesse perdido todo o seu fundamento.

- Amizade como? Daquela em que te posso ligar e pedir para me levares às Urgências? Ou é aquela que está ao alcance de um click e já está? Ficas a ser mais um na lista, mandas aquelas mensagens para não quebrar a corrente ou votar em não sei quem? O que é amizade para ti?

É o contentar-se com pouco, porque dá maçada (e chatices),

- O fogo foi mais ou menos. Eles dizem que foi bonito, mas para aquilo que já tivemos, vi muitas clareiras... Para quem nunca viu, foi giro, mas para aqueles que assistem todos os anos, estava uma coisa meio insonsa...

É o deixa andar sem grande vontade de exigir, cobrar, fazer acontecer,

- Debateram o escandaloso abandono de idosos nas unidades de saúde. Com muita pena minha, havia cadeiras vazias no plenário. Faço parte do povo e não vi o meu representante lá sentado...

É o medo de reclamar ou de exigir melhores condições de trabalho porque há gente que depende da nossa capacidade para engolir sapos (muitas vezes venenosos) quando o que mais queremos é vomitar as entranhas, dizer meia dúzia de verdades e bater com a porta,

- Antigamente, havia gente que levava coisas da empresa para casa. Hoje, até papel higiénico tive de levar de casa para o trabalho...

Nesta luta, muitas vezes impensada, de chegar ao fim de mais um dia a cumprir calendário, perdem-se valores, delapidam-se carácteres, somem-se convicções. São as coisas vulgares que tomam conta do dia a dia e da necessidade cada vez mais assustadora de consumir ou fazer acontecer, num passe de mágica, algo que nos traga aquela sensação de dever cumprido.

E qual é o propósito? De que serve?

Creio que a dada altura, somos todos uma espécie de Alice no País das Maravilhas: confusos e sem um Norte para alcançar...

- Podes dizer-me, por favor, como hei de sair daqui?

- Isso depende muito do sítio para onde quiseres ir - respondeu o Gato.

- Não me interessa muito para onde... - disse Alice.

- Nesse caso, não importa o caminho - respondeu o Gato.

Sónia Silva Franco
Outras Notícias