Quais devem ser afinal as nossas preocupações?

Que legado temos para deixar aos nossos filhos? Uma sociedade equivocada, politicamente instável e populista, religiosamente fanatizada, socialmente indiferente, para tantos agoniada, desesperante e sem valores?

06 Jan 2017 / 02:00 H.

Prioritariamente os nossos filhos. E com eles a educação, a saúde, o desemprego, a emigração forçada, a droga. Também as desigualdades sociais acentuadas, a indiferença perante a pobreza, a insegurança sempre latente, a criminalidade crescente fruto da difícil e conturbada conjuntura, a actual contagiante desconfiança no sistema financeiro nacional, as dificuldades na luta contra as novas doenças. Mais os inesperados riscos que nos vão comunicando a passo, intermitentemente, como os que anunciam, para juntar ao tabaco e ao álcool, as carnes vermelhas, os enchidos, a carne processada. Ou os que falam do perigo branco, e assustam-nos com o leite, o arroz, a farinha, o sal e o açúcar. Mas também os que apontam aos peixes que comem toxinas ou os que ingerem mercúrio. E tantos outros malefícios do nosso tempo.

E como se não bastasse, vem esta praga do terrorismo, antes longe, ora pertinho, bem dentro da nossa casa. Por aqui na Europa. Em Nice, Zurique, Berlim, no inicio do ano em Istambul. Quem deixou a porta aberta? Apetece perguntar.

Que legado temos para deixar aos nossos filhos? Uma sociedade equivocada, politicamente instável e populista, religiosamente fanatizada, socialmente indiferente, para tantos agoniada, desesperante e sem valores? O passado não nos deu suficientes lições de como não fazer e viver, de como ser mais tolerantes, justos e solidários, neste mundo que supostamente já deveria ser plenamente civilizado? Não vimos, vezes suficientes, atrocidades, medo, terror, dúvidas, incertezas? É com isto que os deixamos? À sua sorte? Como vamos poder viver assim, sabendo que não tarda partimos e eles ficam aqui desprotegidos, abandonados, à mercê de um qualquer anormal que de tanto bater com a cabeça na parede virou parede e perdeu a cabeça?

Quais devem ser então as nossas preocupações? Tudo isto? Já não bastava o sentimento de culpa que transportamos por sabermos que eles vão viver pior do que nós? E o fardo imenso que toda a nossa geração assume hoje com a educação dos filhos, sobretudo com os que têm de ir estudar para fora, sem nenhuma certeza em relação ao seu futuro? Para agora vir mais esta coisa medonha, que nos ultrapassa e torna-nos cada vez mais impotentes, perante a teimosamente persistente realidade planetária em que subsistimos, tão atroz e desumana, aparatosamente louca e extremamente injusta. Para os nossos putos. Que nada fizeram para o merecer.

João Cunha e Silva
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