Pré-campanha “mediaval”

A coordenação da política suja e a estratégia de poder (comungada por alguns candidatos), supervisionada por uma empresa

16 Set 2017 / 02:00 H.

Moderna nos meios, medieval na forma. Na próxima Terça-feira, arranca a campanha eleitoral das Autárquicas 2017, é altura de analisar a pré-campanha, foi do mais baixo que se viu até hoje. Os debates na TV provocam abstenção porque defraudam os eleitores. O formato do programa tem gente a mais para tempo a menos. A mesma pergunta não passando por todos os candidatos impede a comparação e a avaliação do mais bem preparado. Além disso, o tempo de intervenção é curto para estruturar e transmitir uma ideia fundamentada, muitas vezes sabotada por interferências dos adversários. É um formato que permite a vitória de quem faz “ruído” com piadas, sobretudo com um jogo de volumes de micro jeitosos. A contínua necessidade de achegas dos candidatos é prova de que a mesma pergunta deve rodar por todos para que o programa tenha fio condutor em vez de ser questionário anarca. O formato “arrefece” o debate porque cada candidato espera muito para voltar a intervir. Um programa entre os dois principais candidatos exige-se para haver realmente um debate.

Jorge Manuel dos Santos (PCTP-MRPP): where is Wally? Roberto Vieira (Nova Mudança): é duvidoso sair de um mandato da Coligação Mudança, há algumas semanas, para avançar com uma candidatura Nova Mudança, atirando ideias que não implementou e denegrindo no que participou. O melhor de dois mundos.

Artur Andrade/ Estratégia: não se vislumbra. Prós: a sua actividade profissional e mandato na CMF capacita-o para interpretar legalmente as políticas e construir um argumentário pedagógico interessante, naturalmente posicionado na sua ideologia. Contra: ausência na pré-campanha, só agora dá sinais de vida mas falha debates. O sigilo profissional em muitas ocasiões emudece-o no cumprimento do mandato na CMF. Falta energia ao candidato para evitar a ideia de estar a cumprir calendário.

Raquel Coelho/ Estratégia: marcar o ponto para o PTP na maior autarquia da região, lutando pelo melhor resultado possível com escassos recursos. Aposta na construção de uma nova imagem. Prós: tacitamente assume que o circo cansou e procura outra postura e argumentos políticos abonatórios. Sem medo e persistente, tem fibra para construir carisma e assim garantir que a denúncia não perderá lugar na democracia regional. Contra: falta de equipa e mobilização. Probabilidade de recaída por natureza e más influências.

Gil Canha/ Estratégia: comunicação estruturada da denúncia sobre situações na CMF. Aposta tudo em ter voz enquanto vereador para prosseguir a acérrima contraposição. Prós: pessoa inteligente, culta, vivida e pertinente. Mais recortado para um bom parlamentar, quando não irritado, produz textos deliciosos com substância. Contra: a impetuosidade e o contínuo alimentar da ideia de que não resolveu o diferendo com Cafôfo provocam um “mute” no eleitorado que não gosta de política persecutória. O eleitorado não entende, depois da luta contra o Jardinismo, o favorecimento tácito a um sucedâneo pior e que não dá mostras de competência. Não deve confiar em demasia nos seus dotes intelectuais para improvisar, pois perde-se. A forma como terminou o PND é um registo que o enfraquece para debater gestão. Uma autoavaliação a realizar: como encara o eleitorado a minha capacidade para gerir pessoas sendo tão fogoso?

Rui Barreto/ Estratégia: começou por conceber as autárquicas com uma possibilidade de aliar-se ao PSD, hesitou com a permanência da tendência das sondagens, moderou o discurso e aparenta equidistância, começa a falar contra o PSD e este a qualquer hora lhe fará uma visita.
Prós: tem melhorado a sua performance com o evoluir da pré-campanha e tem feito propostas. Não acompanha a miserável diabolização que absorve o que de positivo se diz e que provoca o afastamento do eleitorado da porca política. Pode conquistar votos do PSD que migram para Cafôfo. Contra: a forma como ganhou o partido colocam-no no mesmo impasse do PSD-M, está a gerir uma fracção da lotaria com uma esteira de desconfianças, o que funciona como referência de atitude para novas situações.

Rubina Leal/ Estratégia: diabolizar Cafôfo para distrair o eleitorado sobre as fragilidades programáticas da sua candidatura, as divisões no seio do PSD e da Renovação e branquear a coresponsabilidade na situação financeira da CMF. Evitar a presença de figuras polémicas da Renovação.
Prós: boa gestora do submundo e dos interesses, capacidade de “entalar” apoios a seu favor. Excelente a fazer “ruído” e a transmitir ideias com convicção mesmo que frágeis ou erradas. Contra: a diabolização não é estratégia de um partido liderante e menoriza a candidatura. A proliferação de páginas de Facebook de campanha suja que a beneficiam nunca lhe mereceram um reparo ético que a dignifique. Não renova a imagem geral do PSD Madeira, um partido ardiloso e cheio de truques, muitas vezes baixos, e que retiram a eficácia da mensagem porque os eleitores querem sinceridade. Enquanto candidata oriunda de um governo que ostracizou a CMF, soa a falso o uso de “leal” com o Funchal e seus munícipes. Dificuldade em lidar com ambientes não preparados pela sua máquina. Tem uma campanha eleitoral desorganizada como nunca se viu no PSD-M. As acusações de incompetência na CMF colide com o facto de ter sido “general” de um governo com esse exacto epíteto e que destrata os funcionários públicos para instalar a Renovação. O que fará na CMF? Salientar jardins descuidados sendo do partido que arrancou as buganvílias das ribeiras é um exemplo de demagogia numa torrente delas.

Paulo Cafôfo/ Estratégia: ignorar as críticas e seguir o seu caminho sem responder a todos contra si, concentrado em passar a sua mensagem. Campeão do porta-a-porta, principal razão da empatia e popularidade. Seu maior desafio na estratégia é replicar os votos recebidos dos social-democratas nas últimas autárquicas. Prós: a popularidade e o autodomínio na contrariedade. Promotor de elevação na campanha eleitoral por não aderir à maledicência nem responder. Tem trunfos capazes de limpar o PSD Madeira do mapa, de 3 um, o seu autodomínio não o fez premir o “botão”, não tem consciência do que tem em mãos ou não vai usar. Continua independente e capaz de receber votos de qualquer quadrante político. Contra: não responder a algumas acusações, esquecendo-se de que o eleitorado não vive a sua experiência e não tem a sua informação. A incidência e insistência de acusações sobre si poderão estar a acumular uma imagem, na base do “quem cala consente”. Tem dificuldade em interpretar sinais de social-democratas. Enaltecendo o “Zen”, não esquecer que também há lugar para murros na mesa. Já deveria ter sanado a politização do ambiente na CMF e explicado aos funcionários a influência do PAEL no seu mandato. A autoconfiança, autodomínio e preparação não devem degenerar em soberba. A proliferação de candidaturas e a abstenção não o beneficiam.

Nota final: a coordenação da política suja e a estratégia de poder (comungada por alguns candidatos), supervisionada por uma empresa de comunicação, é um insulto aos interesses dos eleitores.

Carlos Vares

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