Penedo do Amor

Francisco e Clara subiram a pulso na vida, fruto do esforço e do talento que todos lhes reconheciam e da união e cumplicidade que marcava a sua vida

18 Ago 2018 / 02:00 H.

As dunas eram bafejadas pelos primeiros raios de sol e aqueles dois corpos ainda dormiam enrolados depois da sua primeira noite de sexo. Conheceram-se no Penedo do Sono e embriagados pelos shots e pelo desejo, desceram até à praia e atiraram-se aquele mar quente iluminado por uma lua cheia, numa daquelas noites à Porto Santo. O resto só os dois sabem, mas por um acaso do destino, aquela relação, aparentemente, esporádica e sem consequências, despertou um enorme amor que ainda hoje perdura. Clara e Francisco juntaram os trapos contra a vontade das famílias que os achavam, ainda, imaturos para a tamanha responsabilidade de uma união e tudo fizeram para os separar. Mas o amor resistiu e aos 20 anos estavam unidos para a vida.

Fugiram da ilha maior e do cerco que lhes tinham montado e foram trabalhar e estudar para Londres. Não conheciam nada nem ninguém, mas fizeram-se ao caminho e enquanto Clara encontrou colocação num hotel de Piccadilly Circus como rececionista, Francisco foi lavar pratos para um restaurante de vão de escada de um emigrante japonês. Tempos difíceis em que para além da integração tiveram que lidar com as saudades da ilha, dos pais e dos amigos. Valeu-lhes a ocupação com o trabalho e com a frequência da Universidade por via de bolsas de estudo atribuídas por uma associação de ajuda a emigrantes ligada à Igreja. Tudo o que conseguiam amealhar era para os estudos. Foi assim que Clara tirou biologia e Francisco se licenciou em astronomia.

Aquela noite no Porto Santo era reavivada muitas vezes e foi daí que nasceu Guilherme. Nesse momento, reatou-se a ligação às famílias que durante anos nada souberam daquele casal de adolescentes, pese embora tudo terem feito para os encontrar por vários cantos do globo. No dia em que foi pai, Francisco, filho único, percebeu a angústia que os seus progenitores e os de Clara passavam por não saberem do seu paradeiro e de como estavam e como viviam. Foram sete longos anos de espera por notícias, e também ele tinha saudades imensas dos pais e percebia o quanto os fizera sofrer. Ligou para a casa da Madeira e anunciou aos gritos que tinha sido pai. Deste lado da linha, estava a mãe que não conseguiu balbuciar uma palavra, tal o tamanho das duas surpresas: ouvir a voz do filho e saber que já era avó. Num misto de choros e risos, numa simbiose de nervos e de euforia, Alice gritou por Filipe, para lhe dar as boas novas e tentar estabelecer uma conversa com o filho. O pai, agora também avô, apesar de ser um homem frio e rígido, não conteve a emoção quando ouviu a voz do filho e soube das notícias. As mesmas cenas ocorreram quando Clara ligou para os pais e para a irmã Celina, a única que a tinha compreendido, quando ela deixou tudo para trás para viver um imenso amor fora da ilha.

Francisco e Clara subiram a pulso na vida, fruto do esforço e do talento que todos lhes reconheciam e da união e cumplicidade que marcava a sua vida. Ele fez carreira no Observatório Real de Greenwich, onde se divide a Terra entre ocidente e oriente e se estabelecem os fusos horários, e ela especializou-se no impacto das alterações climáticas nos oceanos. A partir a da sua ascensão académica e social, reconciliados com as respetivas famílias, vinham várias vezes por ano à Madeira e sempre, mas sempre, escapavam para o Porto Santo para viver uma noite no cordão dunar, ele olhando as estrelas e ela contemplando aquele mar sem fim. E havia tanto para fazer nas ilhas com as suas especializações e os seus conhecimentos.

O filho Guilherme, inclinara-se para os números e depois da formação em Economia, em Oxford, já trabalhava na City com grande sucesso. Apaixonou-se por Mashid, que significa em persa Lua brilhante, uma iraniana que conhecera na Universidade e que tinha um visto temporário de estudante que caducou quando o ocidente decidiu aplicar sanções contra Teerão devido ao desenvolvimento do programa nuclear. Restava uma opção: casar e conseguir naturalidade portuguesa para Mashid, o que foi alcançado com muitas cunhas e imensa burocracia.

Francisco, Clara, Guilherme e Mashid, unidos por laços familiares e, sobretudo, pelas suas estórias, fazem do Porto Santo, todos os anos, o seu refúgio de inverno, onde desopilam do stress das suas profissões e da azáfama da grande cidade, e sempre que podem descem até às dunas. Essas dunas, onde todos já fomos felizes, contando as estrelas, vendo o mar ou simplesmente amando alguém.

Escolhas

Quem?

O Teatro Baltazar Dias que festeja o aniversário com uma boa programação e que acaba de montar “trepadores de escadas” para suprimir as barreiras que dão acesso aos locais emblemáticos do edifício.

O quê?

A revista Islenha, uma publicação do Governo, que ao longo de anos tem dado à estampa estudos e ensaios sobre a História, a Cultura e tantos factos das nossas ilhas. Parabéns a quem a dirige.

Onde?

No Porto Santo, no Centro de Congressos, a exposição de pintura de Guareta Coromoto e Bárbara Sousa, mãe e filha, que apresentam obras com elementos distintos, mas que merece uma visita.

Quando?

As estradas regionais precisam de um plano de requalificação, a começar no piso e a acabar nas bermas, com a plantação de novelos que durante anos foram a imagem de marca da Pérola do Atlântico.

Porquê?

Virou moda o Governo distribuir cheques em cerimónias. Agora, até as verbas dos Sistemas de Incentivos do Instituto de Desenvolvimento Empresarial têm pagamentos públicos. Nem tanto...

Como?

Também as Câmaras aproveitam-se da pobreza para umas cerimónias de distribuição de cabazes e apoios, sobretudo, em épocas eleitorais. Poupem os mais carenciados à exposição pública.

José Manuel Rodrigues Deputado do CDS na ALM