“Op dois... esquerda, direita”

O fisco vai começar a controlar todos os movimentos bancários que fizermos usando os nossos cartões. Ou seja, vem aí mais devassa da vida privada de todo e cada um de nós. Mais uma medida socializante

13 Mar 2018 / 02:00 H.

1. Disco: falar de David Byrne é ficar sem palavras. “American Utopia” é o álbum que nos oferece, depois de 14 anos de “silêncio”. Uma mão cheia de músicas carregadas de optimismo, em tempos onde não se vislumbram saídas fáceis.

2. Livro: caiu-me no colo um livro da autoria de Ferreira Fernandes, “Lembro-me Que”. São pequenos textos que o jornalista escreveu para assinalar os 40 anos que passaram sobre o 25 de Abril, numa ideia que colheu de Georges Perec e de Joe Brainard. Bom e rápido de ler.

3. Permitam-me a insistência, mas tenho uma enorme dificuldade em conseguir perceber o pouco que nos preocupamos com o que nos sai do bolso. Lancei a passada semana uma petição sobre os juros da dívida da Madeira. Poucos, e bons, assinaram. A interrogação mantém-se: porque raio deve a Madeira estar a pagar juros muitíssimos mais altos do que a República pelo empréstimo a que foi obrigada pelo PAEF?

Juros esses que o próprio António Costa disse, há três anos, que deveriam ser acertados em relação ao que a República paga, quando se vai endividar nos mercados.

Três anos é muito tempo. É muito dinheiro pago em juros que poderia ser aplicado noutras necessidades. Na saúde, por exemplo, que tanto precisa.

É tempo de levantarmos o braço e, ao alcance de um clique, tomarmos posição assinando a petição a pedir o “Agendamento de um Debate na ALRAM Sobre os Juros do PAEF Madeira” de modo a permitir uma posição conjunta de todos os partidos aí representados, devidamente suportados por um movimento de cidadania.

https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT88573


Assinem e partilhem!

Somos todos Madeira e a Madeira é de todos nós.

4. Que bom. Andam aí uma data de detractores a dizer mal do “Jardim” da Isaura, pela voz da Cláudia Pascoal. Já vi este filme o ano passado. E deu no que deu...

5. Nunca fui pessoa de gatos. Mas por insistência da Assembleia Geral lá de casa, adoptei um. Ou melhor: um gato adoptou-me. Veio adulto e cheio de personalidade. Cheirou tudo, mesmo tudo, o que havia lá em casa para cheirar. Levou nisso dois dias. Aparece quando quer e chama-nos quando precisa de alguma coisa com um miado seco e autoritário. Fiquei particularmente satisfeito pela sua aceitação das instalações sanitárias. Usou-as a preceito com quatro belas bolas que se apressou a enterrar na sílica. Depois foi tempo de nos marcar com marradinhas e esfreganços. E de mostrar que aprecia a ração que vai ter que comer o resto da vida por causa do problema renal que o pôs no nosso caminho. E terminou assim o processo de adopção, feito que foi o contrato de partilha de amor e atenção entre nós e esta enorme bola de pelo de olhar meigo e intenso. Bem-vindo Garfield.

6. Em Lamego decorreu o Congresso do CDS. E não tenho mais nada a dizer.

7. Menti, tenho uma coisa a dizer: por que carga de água é que o BE e o PCP não se fazem representar nas sessões de encerramento dos congressos do CDS? Em pleno século XXI, em democracia, isto é uma cretinice. Para além da óbvia, e evidente, enorme falta de educação.

8. O fisco vai começar a controlar todos os movimentos bancários que fizermos usando os nossos cartões. Ou seja, vem aí mais devassa da vida privada de todo e cada um de nós. Mais uma medida socializante, a provar o empenho que o Estado tem em fazer valer a máxima: “todo o cidadão é criminoso fiscal até prova em contrário”.

O fisco não pode pretender criar um sistema onde põe os outros a fazer o trabalho que deveria fazer.

E antes que venha: eu não temo nada! A não ser o controlo da minha liberdade e da minha privacidade.

Por muito menos vi “cair o Carmo e a Trindade” pela boca da esquerda folclórica nos tempos de Passos Coelho.

Mas isto agora, como é geringonçal, já vale tudo.

9. O Governo Regional chamou a si a venda dos bilhetes de um segundo voo para os estudantes madeirenses a estudar no continente. Interveio como lhe compete quando o mercado é distorcido e fez muito bem. De que é que estavam à espera as Agências de Viagens que permitiram que no dia em que os bilhetes do primeiro voo foram postos à venda, na sua abertura ao público, já estivesse a lotação do voo esgotada?

10. No passado dia 8, foi Dia Internacional da Mulher. As mulheres que prezo e amo sabem que essa data não é dia de lhes dar os parabéns. Preferem que continue a achar que entre um homem e uma mulher há as diferenças que existem entre duas pessoas, independentemente do género. Não dou flores, janto como se o dia fosse igual aos outros e não faço um strip aos pés da cama (até porque não seria uma coisa bonita de ver). Sabem também que sei que, se o dia existe é porque há mulheres, e já agora homens, que não são vistos nem tratados como iguais. Que o dia é de reflexão e de denúncia.

11. O “bandido” do Pedro Fontes, que tão bem e assertivamente escreve nas páginas deste diário, lembrou-me o Henry Louis Mencken: “Na democracia, um partido dedica sempre quase todas as suas energias tentando provar que o outro partido não está preparado para governar. Em geral, ambos são bem-sucedidos e têm razão.”

12. É domingo, dia criado por Deus, essa suprema criação da direita. Esta noite dormi opiparamente, o que denuncia o meu ser de direita. Vesti-me usando umas opressoras boxers de direita e fiz-me à vida. Na bomba de gasolina atestei como só um gajo de direita o pode fazer. Uma torrada e um direitista chá serviram de mata-bicho. Voltei a casa para apanhar a mulher e a filha (que anda num colégio privado, logo de direita). A mulher esmerou-se como mulher de homem de direita. Numa apreciação técnica machista e de direita, diria que estava linda. Fizemo-nos à estrada no automóvel familiar em ritmo de passeio. Coisa de gente de direita.

Uma paragem pelo caminho, para almoçar. Uma mania da direita. E lá continuámos com a miúda a dormir no banco de trás. Tão novinha e já com hábitos direitistas. A meio da tarde estávamos de regresso à cidade para um gelado naquela gelataria, à direita, que tem os cones dos gelados para uma pessoa se sentar. Agora alugam lá carros para as crianças darem uso à Praça do Povo, essa abominação da direita. O raio da “piquena” (vocábulo tão, mas tão, de direita) tinha logo que escolher uma imitação de um Audi topo de gama. Já vai no bom caminho, esta direitista.

Uma passagem pelo supermercado para comprar uns direitistas, mas saborosos, camarões para fazerem companhia a umas cervejas artesanais feitas pelo tio Jorge (que coisa tão de direita).

No final do dia mantive o hábito tão direitista de ligar às filhas mais velhas para saber se estava tudo bem com elas. Esta mania de direita de controlar a vida dos outros.

Mas que dia tão bem passado à direita. E já agora à esquerda também.

PS: dedico este pequeno texto aos meus amigos que não conseguem fazer uma simples apreciação de coisa nenhuma debruçando-se sobre os factos em si, carregando sempre a fita métrica com que vão medindo um “op dois, esquerda direita” tão imprescindível para o seu concluir.

Nuno Morna

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