O Xilófago da Sé (2)

Eu já mandei alargar o smoking, pois as festas tornaram-me mais volumoso e comprei um laço novo para festejar o São Silvestre no evento que estamos a organizar na torre sineira, o melhor local da cidade para ver o fogo. Já lá vai o tempo em que eram as 12 badaladas da meia noite na Sé que marcavam o arranque do espetáculo pirotécnico, agora é tudo por computador e comandado por bips de relógios digitais.

30 Dez 2017 / 02:00 H.

A Festa tem sido boa por estes lados e os troncos de pinheiro que trouxeram para a Lapinha são saborosos. Por estes dias, ando aninhado nuns musgos entre a manjedoura do Menino e um bordão de um pastor e tem sido um fartote a roer umas raízes de cabrinhas. Ando no tenro e deixei as imagens de cedro, castanho e til, por uns tempos, em paz. Não se esqueçam que sou um Xilófago e como madeira. Em boa verdade eu e a minha família somos os responsáveis pela buracada que vai por aí, salvo seja porque há muito buraco feito pelos homens que nada tem a ver connosco. Vejam os buracos financeiros feito pelos senhores que hão de vir amanhã ao Te Deum. É a chamada Xilofagia: o ato de roer a Madeira e é o que tem acontecido com grande intensidade nas últimas décadas...comparado com isto só os incêndios de há 600 anos que puseram a ilha a arder e que iam dando cabo dos meus antepassados que viajaram desde Lisboa nas caravelas.

Por esta zona, tenho a concorrência de uns “serrotes” que aparecem nas esplanadas dos cafés em frente à Sé e de vez em quando gosto de ouvi-los, quais intelectuais da bica, a opinar sobre tudo e mais alguma coisa, com a jactância de quem sabe tudo. Mas isso são outras estórias. Sou um felizardo, pois quem mais pode dizer que tem por casa uma Catedral deste tamanho com tanta arte e riqueza e com o supremo privilégio de estar com todas as classes sociais e com quem manda na terra? Às vezes aparecem por aí umas pulgas e uns murganhos, mas são rapidamente aniquilados pelos inseticidas e pelas ratoeiras do sacristão. Ele também nos tenta apanhar com petróleo, mas deita por um lado e nós fugimos por outro, já que, em cada imagem, construímos um labirinto semelhante às artérias dos humanos. A propósito, tenho visto de tudo desde os meus postos de observação, o melhor dos quais é o púlpito. Convivi com beatas, umas mais virgens e pudicas que outras, andei com padres, uns mais celibatários que outros, estive com bispos, uns mais sorridentes que outros e até ladeei um Papa. Nesse dia grande, saí do pé de São José e, corajosamente, fui alojar-me no cadeiral do altar mor. Uma flatulência inesperada quase me dava cabo da vida, tendo me valido o espirro forte de um cónego que me atirou de volta ao pé do santo. Ufa.

Já pensei mudar de casa, mas a experiência no Parlamento não correu bem. Fui tentado a transferir-me, por uns tempos, para um Palácio, talvez a Quinta Vigia ou os Paços do Concelho, mas desisti, pois aquelas madeirinhas estão, ainda, muito verdes e precisam de secar e amadurecer...aquilo é bom para uns meus parentes vegan que, agora, só comem parquet e laminados, armados em finos e saudáveis. A propósito, já não se fazem esculturas como antigamente e agora o que vai aparecendo são umas imagens de terracota, barro, gesso e até uns sintéticos chineses o que põe em causa a sobrevivência da minha espécie. Não vejo o PAN ou os defensores dos animais preocupados com esta situação e com os nossos direitos, tão válidos como os dos gatinhos e cachorrinhos. É por isso que votos só os de castidade, e tem dias, e urnas só as dos bispos que aqui estão sepultados.

Amanhã, vamos ter aqui na Sé os dignitários da ilha para a Ação de Graças, no tradicional Te Deum. Vou, mais uma vez, meter uma cunha a ver se arranjam dinheiro para abrir esta Sé entre o meio dia e as três da tarde, já que não faz sentido que tanta gente, em especial estrangeiros, a essas horas, batam com o nariz na porta e não possam ver-me e ao nosso principal monumento. Alguns destes VIP´s, pelos seus erros e omissões, deviam ficar pelo adro, mas o cristianismo tem compaixão e se eles baterem no peito e se arrependerem estão perdoados. Outros, com tantos pecados e tantas maldades, deviam ser barrados à porta, mas com muita contrição e penitência, talvez se livrem do inferno e fiquem pelo purgatório, ou até alcancem o Céu. Outros, ainda, não sendo crentes, aqui vêm à procura de protagonismo e para cumprir o ritual e o protocolo. A todos desejo que tenham mais juízo para o ano, e não basta pensarem, no meio do fogo, das passas e do champanhe da meia noite, que vão mudar, é preciso mesmo que mudem, se não para o ano aqui estarei a dar notícias.

Eu já mandei alargar o smoking, pois as festas tornaram-me mais volumoso e comprei um laço novo para festejar o São Silvestre no evento que estamos a organizar na torre sineira, o melhor local da cidade para ver o fogo. Já lá vai o tempo em que eram as 12 badaladas da meia noite na Sé que marcavam o arranque do espetáculo pirotécnico, agora é tudo por computador e comandado por bips de relógios digitais. Mas, fiquem sabendo que o melhor réveillon é mesmo por estas bandas, e apesar de mais gordo, tenho que estar bonito para a passagem de ano, uma vez que estou, perdidamente, apaixonado por uma formiga branca (não é piada para a maçonaria, é mesmo uma fêmea da minha espécie) que vive no piano do salão dourado do Palácio de São Lourenço. Preparem-se porque vamos ter boda nos próximos tempos. Feliz Ano.

Escolhas

Quem?

2018, todos esperamos que seja um ano de viragem em vários domínios da nossa vida coletiva e pessoal. A Esperança de quem vai Começar de Novo.

O quê?

Adeus 2017, porque foi um ano de perdas, algumas irreparáveis. Só os que acreditam podem superar tamanhas tristezas.

Onde?

No Centro Cívico do Jardim da Serra, uma Lapinha de grandes dimensões com os aspetos mais marcantes das vivências das ilhas. A merecer uma visita.

Quando?

A Fortaleza do Pico, um ícone do Funchal, foi transferida para o património da Região em 2014, mas tarda em ser usada e rendibilizada. Para quando a sua abertura?

Porquê?

Temos a melhor Festa do Mundo sem comparação com as Festas da Flor, do Vinho ou do Carnaval. Porque não promovemos turisticamente o Natal na Madeira?

Como?

Atenção à limpeza das pedras, dos troncos e dos entulhos nas serras. É verdade que parece verão, mas o inverno pode vir de repente e como diz o povo mais vale prevenir que remediar.

José Manuel Rodrigues Deputado do CDS na ALM
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