O quarto de engomar

A minha mãe, depois de varrer, lavar e arrumar, penteava-se à frente do espelho do quarto de engomar

16 Jul 2017 / 02:00 H.

Na minha casa as divisões tinham nome. Havia o quarto de jantar onde nunca se jantava, a sala das visitas que só se abria às vezes, o quarto da televisão, o quarto da máquina de costura e, na passagem da cozinha, o quarto de engomar, onde nos dias normais se acumulava roupa por passar em cima de uma mesa. Ao domingo, a minha mãe arrumava tudo e metia flores numa jarra.

Por umas horas havia ordem no interior caótico da casa onde cresci e era bom. Lembro-me de ver o feto comprido a decorar o quarto de jantar, de me sentar no sofá da sala da televisão sem ter de afastar os embrulhos de bordados ou os maços de papéis, de bilhetes e guias, chapas e toda a tralha que a minha mãe trazia da casa de bordados. E até o cinzeiro de Nossa Senhora de Fátima ficava vazio, sem as moedas e clipes que se acumulavam lá durante a semana.

A minha mãe, depois de varrer, lavar e arrumar, penteava-se à frente do espelho do quarto de engomar, dava umas cinco voltas a ver se estava tudo desligado – o ferro e o fogão – e descia a entrada. Quase todas as tardes de domingo acabavam em casa do meu avô, o lugar onde vinham dar as primas Berimbau, a minha tia Alice, a minha prima Ana, onde o meu irmão e eu morríamos de tédio quando o filme da sessão da tarde era dos maus.

Quando não havia maneira de aguentar o que estava a dar na televisão, lembro-me de ficar a ler as cartas que a tia Gabriela mandava do Brasil e a ver as fotografias dos primos, sorridentes a receber o diploma da escola ou na festa de casamento. A casa da minha tia Gabriela e as festas de casamento dos meus primos pareciam dos filmes, não tinham semelhança com as festas onde tinha ido, nem com as casas que conhecia, quase todas como a minha, feitas aos soluços e com mobília descasada.

Nenhuma, nem sequer a da minha tia do Brasil ou a da minha tia Alice, era como aquelas que vinham na revista que estava na sala da casa do meu avô, uma que fazia parte da decoração como a boneca espanhola e a caixa de música que tocava o ‘Love Story’ quando se dava corda. As casas dessas fotografias pareciam palácios com jardins relvados e quartos como deve ser, bem divididos e forrados a alcatifas fofas, e cozinhas organizadas com loiça a condizer.

Lembro-me do encantamento daquela revista, de como mostrava um mundo que eu nunca tinha visto. Um mundo onde viviam pessoas que sabiam andar de elevador, que lavavam a roupa na máquina, tinham um aspirador em vez de vassouras, edredões no lugar dos cobertores, colchões de molas sem aquelas lombas que se formavam nos nossos feitos de lã e um aspecto menos cansado que a minha mãe. A minha mãe lavava, passava, fazia jantar e almoço, bordava e ainda nos mantinha a todos na ordem, mas estava a envelhecer. Aos 50 tinha o cabelo quase todo branco.

A vida custava, mas eu não tinha idade, nem discernimento para perceber. Eu era apenas uma adolescente que, aos domingos à tarde, fugia para a sala da casa do meu avô só para ver as fotografias numa revista e sonhar com outra existência, entre sofás macios e carpetes bonitas, espelhos grandes e almoços servidos em loiça nova numa casa sem quarto de engomar e roupa a acumular em cima da mesa e com a minha mãe menos cansada, menos preocupada. A minha mãe ficava muito bonita quando sorria.

Marta Caires

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