O povo é quem mais ordena

Estes resultados demonstram que as campanhas dos grandes comícios e dos fartos jantares já não rendem votos

07 Out 2017 / 02:00 H.

As eleições de Domingo foram uma lição de civismo e de voto refletido por parte dos madeirenses e dos porto santenses. Independentemente de se concordar ou discordar das orientações de voto e das escolhas maioritárias do eleitorado, é justo reconhecer que na senda do que já tinha acontecido nas autárquicas de há 4 anos, as populações votaram de forma consciente e tendo em conta os seus interesses pessoais e coletivos. A descida, ainda que ligeira da abstenção, é um sinal positivo, assim como é de saudar o fim dos unanimismos, a recusa em seguir, cegamente, candidatos impostos pelas máquinas partidárias e o falhanço dos que prometem tudo e mais alguma coisa, sabendo que não poderiam cumprir. Os eleitores votaram mais nas pessoas do que nas siglas partidárias. A volatilidade do voto foi surpreendente e é a prova de que ninguém é dono do voto de ninguém e que aquela expressão “o nosso eleitorado” está a cair em desuso.

Os resultados são conhecidos, já foram analisados e comentados e o que aqui importa é lançar um olhar global sobre as razões deste voto, que não é apenas local, saber quais as suas implicações no xadrez político regional atual e que pistas abriu para as regionais de 2019, não do ponto de vista dos partidos, mas numa perspetiva de governação da Região. Sou de opinião que a maioria dos eleitores fez as suas escolhas tendo conta um conjunto de fatores: a reposição de rendimentos e pensões por parte do Governo da República; o desgaste evidenciado pela governação regional; a realidade da sua freguesia e do seu concelho; a avaliação do trabalho dos autarcas recandidatos; a competência e autenticidade dos novos candidatos e a qualidade das ideias e propostas apresentadas nos programas. É obviamente difícil saber qual destas realidades mais pesou na opção de voto, embora isso possa ser aferido quando vimos que nestas eleições se registaram elevadas discrepâncias no sentido de voto do eleitor em função do órgão para o qual votava (Câmara, Assembleia Municipal, Assembleia de Freguesia) o que indicia escolha esclarecida. Uma analise esmiuçada dos resultados permite concluir que houve eleitores que votaram numa candidatura para a Câmara, noutro partido para a Assembleia Municipal e, ainda, noutra lista para a Freguesia. Esta situação de três votos diferentes, ou no mínimo duas votações desiguais, são constatáveis em vários Municípios. Nalguns concelhos, um partido ganhou em numero de votos para as freguesias e perdeu na eleição para a Câmara. Esta situação permitiu que as forças políticas fizessem leituras sobre vários prismas, consoante o seu interesse, com algumas a interpretarem derrotas como vitórias, assim como possibilita, agora, avaliações de desempenho sobre a popularidade, ou a falta dela, de alguns candidatos. Os resultados revelaram, também, que os movimentos de cidadãos independentes não são uma garantia automática de sucesso eleitoral, pois nalguns caos vingaram e noutros não tiveram aceitação. É de salientar, ainda, que se registou uma convergência de voto ao centro, com perdas para os radicais e para os extremos do espetro político. Uns dirão que foram umas eleições atípicas, eu prefiro vê-los como a expressão de um voto amadurecido e ponderado em função dos fatores enunciados, mas neste caso, principalmente, do mérito dos candidatos aos vários órgãos da autarquia.

Estes resultados demonstram que as campanhas dos grandes comícios e dos fartos jantares já não rendem votos e que o populismo falso e a promessa fácil já tiveram melhores dias. Os eleitores apreciam mais o contato com o candidato, a simpatia, a humildade, a atitude positiva e o seu passado na defesa do bem comum. Fica ainda provado que as campanhas negras, o fatalismo, a maledicência são um fracasso. Os resultados indicam, também, que a maioria do eleitorado já não se deixa condicionar por ofertas ou ameaças, não se influencia por bipolarizações ou sondagens, não vai na cantiga do voto útil e preza o equilíbrio e a alternância política.

Neste sufrágio houve de tudo: o povo deu maiorias absolutíssimas, concedeu maiorias absolutas escassas, optou por maiorias relativas, obrigadas à negociação permanente, e provocou alternância onde entendeu que as coisas não iam bem, pese embora ter maioritariamente premiado quem era poder. As pessoas querem política com resultados e governação com respostas. Estas eleições não foram a primeira volta das eleições regionais, mas lançaram avisos e abriram pistas para 2019. As peças do xadrez político madeirense começaram a movimentar-se e vai assistir-se nos próximos meses a mudanças na alta administração pública e nos partidos, sendo que, nalguns casos, mesmo, nas suas lideranças. Vai ser visível um realinhamento de alianças e de personalidades no panorama regional e não espantaria o surgimento de um movimento ou de uma nova força política para disputar essas eleições. Oxalá que os políticos, os que ganharam e os que perderam, tivessem a lucidez e a ponderação que os eleitores tiveram no Domingo.

Escolhas

Quem?

Rui Gonçalves. O rosto da austeridade na Madeira, mas também o homem que pôs as contas da Região na ordem. Testemunhei, em Lisboa, como defendeu intransigentemente os interesses regionais.

O quê?

O primeiro Congresso dos Sobreviventes de Cancro no final deste mês no Funchal para falar de forma natural e até com humor sobre um mal que atinge cada vez pessoas, mas que vai sendo vencido.

Onde?

No Liceu, a abertura do Núcleo Museológico, um espólio bem interessante de uma escola que marcou várias gerações, a assinalar 180 anos.

Quando?

Já revolta ler notícias sobre as faltas de medicamentos no Hospital. Quando é que alguém se explica e, sobretudo, quando se resolve o problema?

Porquê?

Começa a banalizar-se o condicionamento do aeroporto e as imagens de passageiros à espera e sem condições. Porque é que as autoridades aeronáuticas não revelam o que está na origem desta “ventania”?

Como?

O Governo Regional vai ser remodelado. Nunca tinha visto anunciar uma remodelação a prazo, mas se for para melhorar alguns setores, é bem vinda.

José Manuel Rodrigues Deputado do CDS na ALM
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