O meu pedaço de terra

Independente-mente das capacidades, o intruso é um alvo a abater, até porque nos quintalinhos bem ornamentados não é a meritocracia que prevalece, mas sim as espinhas vergadas. Por isso é que as renovações são tão complicadas...

08 Nov 2017 / 02:00 H.

Todos os dias gastamos tempo, paciência e energias com coisas completamente desnecessárias. Ao cair da noite, naqueles momentos em que milhares de flashes nos passam pela cabeça, apercebemo-nos que se calhar não devíamos ter desperdiçado um segundo com aquela situação ou com determinada pessoa. Pequenos arrependimentos que somados são bem capazes de dar uma conta assustadora.

Sabes que me deves 3 dias de vida?

Estás a ver estes cabelos brancos? 30% deles apareceram por tua causa!

Mas perder tempo também nos ensina a ser mais rigorosos, a fazer uma triagem com aquilo que deve merecer, ou não, o nosso empenho e a nossa atenção.

A gratuitidade do nosso tempo (quanto tempo te resta?) é algo que só nós podemos dispensar. Há pessoas que nos consomem de tal forma que exigem uma exclusividade sufocante. O sentimento do dar e do receber nem sempre é equilibrado e, muitas vezes, os pratos da balança das relações humanas estão completamente desalinhados.

É justo?

O dar e receber na esfera pública resume-se, salvo raras excepções, a quintalinhos devidamente ornamentados, onde cabem pequenas e fiéis famílias, dispostas a agarrar nas armas para defender o seu pedaço de terra. Uma singela propriedade que toma forma nas influências, nos corredores do pequenino poder, nos quartos escuros das negociações e assume um dos seus expoentes máximos na pessoa do fiel zelador das chaves da retrete.

É nesse pedaço de terra que cabem todos aqueles que interessam: a família, os amigos, os amigos dos amigos, os primos dos amigos, os sobrinhos dos primos dos amigos, etc.

Que faziam antes de se juntarem ao clã? Não tinham vida? Trabalho? Objetivos? Profissões? Sustento?

O importante é colecionar um pequeno exército de lealdades, ocupar o quintalinho com fiéis seguidores e evitar ou condicionar a entrada de intrusos que, com a sua frescura e empenho, são vistos como ameaçadores.

É este o sentimento de posse que tolda a capacidade de ver e de enxergar que para além do quintalinho há um horizonte à espera de ser descoberto.

O medo de perder o conforto, de alargar o leque à entrada de novas (ou até mesmo de velhas) ideias, o receio de perder o seu bocado de terra, dificulta o crescimento, entorpece a ousadia e a vontade de querer mais e melhor.

Há pequenas organizações que se sentem confortáveis na sua pequenez. Desde que garantam o suficiente para si e para os sobrinhos dos primos dos amigos, está tudo bem, está tudo perfeito. Por isso não crescem, não se expandem, não conquistam, nem abrem espaço a novas ideias, novas aragens, novas pessoas. Alimentam-se do medo de que o intruso se mostre mais capaz, mais ousado, mais empenhado e diferente.

Em vez de ser encarado como uma mais valia para o grupo e para as novas metas de crescimento, o intruso é, na maior parte dos casos, ridicularizado, enxovalhado ou ignorado. É assim com novos e até mesmo com velhos contributos.

O quintalinho tem de ser protegido a todo o custo. Não interessa expandir, nem ouvir opiniões, nem é aconselhável abrir portas para deixar entrar as novas aragens.

Independentemente das capacidades, o intruso é um alvo a abater, até porque nos quintalinhos bem ornamentados não é a meritocracia que prevalece, mas sim as espinhas vergadas. Por isso é que as renovações são tão complicadas...

Quando o medo de perder o seu pedaço de terra é superior à vontade de experimentar novas metas, damos lugar à estagnação e quem estagna não avança, nem deixa avançar.

Há organizações políticas que se contentam com um punhado de militantes. A falta de ambição e de visão é gritante, mas andam felizes e contentes com o seu pedaço de terra que dá para si, para os seus, para os primos e para os sobrinhos dos amigos.

Sónia Silva Franco
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