O homem que me ensinou a gostar de livros

O meu pai gostava de pessoas de saber e talento, tinha por elas a maior admiração.

08 Jan 2017 / 02:00 H.

Voltar às aulas nunca foi um sacrifício. Eu gostava de correr para o autocarro e de subir à pressa pela entrada do Girassol já com o toque de entrada a dar, ainda de cabelo molhado e com aquele jeito mais ou menos rebelde de quem tinha quase 17 anos e muitas certezas. Os anos do secundário foram felizes, era como regressar à luta e às notas para entrar na faculdade, mas a verdade é que nunca me queixei da escola nem mesmo nos piores momentos da adolescência, quando me sentia a última por ter sete quilos a mais e dinheiro a menos para comprar as sapatilhas Nike da loja do centro comercial.

Da escola eu gostava, assim de coração, mesmo quando me sentia incapaz na dactilografia e tremia nos pontos de Matemática e Física; quando o Inglês me parecia a língua mais esquisita e absurda, uma coisa que tinha sido inventada só para me tirar o sono e baixar a média. Ou mesmo nos anos do ciclo, no terror das aulas de Música sem saber distinguir na escala um dó. Aquilo não era simples, nem fácil e eu tinha contra mim a inabilidade, o isolamento, a falta de livros, o dinheiro que não dava para tudo e menos ainda para viagens, visitas de estudos, explicações.

As conversas da minha mãe e as histórias amargas do meu pai, aquela espécie de doutrina que repetiam à mesa, a ver televisão ou a meio de uma crise de adolescente com choro e portas a fechar com estrondo, terão ajudado. Não aprender, não gostar de saber mais seria o mesmo que trair a minha mãe que queria ser professora e não foi porque dantes era assim, as famílias não se empenhavam na educação das raparigas. E eu também não podia dar um desgosto ao meu pai, que assinava a custo o nome e mesmo assim via concertos de música clássica na televisão. Era por causa do maestro, que era uma pessoa de saber.

O meu pai gostava de pessoas de saber e talento, tinha por elas a maior admiração. Os olhos brilhavam tanto como quando falava dos dias negros da infância, quando havia pouco que comer e o frio passava por debaixo da porta, quando a vida era mesmo difícil. E eu não sabia sequer o que seria ter fome ou frio. O meu maior desgosto eram as saias de fazenda que a minha mãe me fazia, era não ter umas sapatilhas Nike, era ser gordinha e não perceber Inglês. O meu pai não merecia um desgosto, a minha mãe menos ainda e eu até gostava de aprender.

Nas aulas, no intervalo, nas conversas, na televisão e nos livros que vinham emprestados da casa da minha tia Alice e nos que, aos poucos, comecei a comprar com o dinheiro do lanche. Aos 16 anos o armário da sala tinha uma prateleira para os meus livros. Uns anos depois o meu pai mandou fazer uma estante e perguntou-me com ar espantado se já os tinha lido todos, aqueles livros que por essa altura se acumulavam em colunas no meu quarto. A conversa tem mais de 20 anos e eu não sei bem o que lhe disse, mas tenho a certeza que não disse o mais importante.

E o mais importante é que gosto de ler por ele, pelo fascínio que sempre teve pelas pessoas que sabiam ler. Foi ele, o meu pai - o mestre Gabriel do Laranjal, pedreiro de profissão - o homem que me ensinou a gostar livros.

Marta Caires

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