O Homem do Saco

O homem do saco dos terrores da infância assume formas mais requintadas nos difíceis e conturbados tempos da fase adulta. É perante a sua ameaça que nos calamos quando não queremos, que passamos a vida a engolir elefantes e nos engasgamos com simples mosquitos. É quando sentimos aquele nó apertado na garganta quando não intervimos quando devemos. O homem do saco, essa figura repugnante, domina os nossos medos quando nos deixamos invadir pelo fatídico terror que nos impede de... simplesmente pensar

14 Mar 2018 / 02:00 H.

É impossível ficar indiferente ao berreiro. A criança esperneia, sacode-se, deita-se para o chão e desata num pranto cada vez mais desconcertante para os pais que, aflitos, não sabem como pôr termo ao ataque de fúria daquele pequeno demónio. Pedem desculpas envergonhadas, lançam olhares de súplica para os desconhecidos que, divertidos ou embasbacados, assistem à cena constrangedora. O jovem casal desfaz-se em mil bocados quando alguém se aproxima de dedo em riste e diagnostica que afinal a criança tem baboseira a mais.

A velha, especialista nos diagnósticos, sussurra qualquer coisa ao ouvido da miúda e esta desata a chorar ainda mais alto. Desta vez, o choro é diferente. Vem de dentro, da alma. A pouco e pouco, os gritos dão lugar a soluços, interrompidos por pequenos lamentos quase que impercetíveis. É difícil verbalizar a dor, mas apercebo-me que as lágrimas daquela miúda escorrem pela face com mais intensidade. Faz-se silêncio. A troca de olhares entre desconhecidos terminou e as pessoas decidem seguir o seu ritmo normal. Lojas, balcões, compras, sorrisos, devoluções.

- O homem do saco vai me levar para longe?

O pânico da criança faz com que se agarre ao pescoço do pai com demasiada força. O jovem tenta tranquilizá-la. Afinal, o homem do saco está longe. Esse velho malcheiroso que anda pelas ruas a castigar as crianças mal-educadas não pode entrar ali, no centro comercial.

- Ele só aparece à noite. Não te preocupes que daqui até lá, tu vais ser uma menina bem-comportada!

A menina funga, limpa o ranho à t-shirt do pai e com os olhos marejados de lágrimas diz, por entre soluços, que tem medo do homem do saco, essa criatura que faz parte dos traumas de dezenas de gerações e que serviu para condicionar comportamentos, moldar personalidades, domar impulsos.

Há de crescer a pequenina que afinal só queria uns sapatos de Cinderela. Todo aquele berreiro tinha apenas um único propósito, mas a ameaça velada do aparecimento do homem do saco, fez com que se esquecesse dessa necessidade de imaginar que era uma pequena princesa, com sapatinhos delicados de cristal. Há de crescer com ou sem baboseira, mas há de encontrar sempre, em cada esquina, um homem do saco pronto para castigar, ameaçar e intimidar as vontades individuais que têm, obrigatoriamente, de ser engolidas pelas normas e regras ditadas por aqueles que têm mais poder.

O homem do saco dos terrores da infância assume formas mais requintadas nos difíceis e conturbados tempos da fase adulta. É perante a sua ameaça que nos calamos quando não queremos, que passamos a vida a engolir elefantes e nos engasgamos com simples mosquitos. É quando sentimos aquele nó apertado na garganta quando não intervimos quando devemos. O homem do saco, essa figura repugnante, domina os nossos medos quando nos deixamos invadir pelo fatídico terror que nos impede de... simplesmente pensar, até porque «pensar é a via sacra para a ameaça de mudança», como tão bem exemplificou o psicanalista João Sousa Monteiro no seu trabalho sobre “Cobardia e Medo”.

O homem do saco, ou o papão da infância, condiciona vontades, destrói consciências, limita movimentos, abala crenças e valores. Tudo em nome do pensamento único que faz com que tenha a missão de transformar as suas vítimas em discípulos obedientes, desprovidos de matéria crítica, de vontade própria a não ser a sua. O homem do saco escolhe muito bem as suas presas. Regra geral, dependem dele para pôr comida na mesa, ganhar o sustento, conservar as regalias, apanhar as migalhas. Em troca, devem-lhe obediência. O conforto material que garante a subsistência assume contornos demasiado elevados que não deixam abrir espaço para as vontades próprias, ou para o pensamento próprio. Não há margem para desalinhados, críticos ou donos do seu nariz. O homem do saco não o permite. Caso contrário, leva-nos para bem longe daquilo que amamos e conhecemos.

É o medo que tolda o raciocínio e faz com que continuemos a alimentar esses homens do saco, sinistros e tão fáceis de identificar nos dias de hoje. Têm muitos nomes, muitas cores e muitas manhas. Ainda vivemos numa era de mordaças e de papões que não toleram novas ideias, discordâncias, críticas ou até simples debates. Porque quando as pessoas dão voz aos seus pensamentos e às suas vontades, significa que estamos a evoluir. Para essas figuras sinistras, a evolução é vista como uma ameaça desestabilizadora do pensamento único e dos quintalinhos organizados. E enquanto existir uma permissiva cobardia silenciosa, o homem do saco vai continuar a colecionar seguidores.

«A personalidade criadora deve pensar e julgar por si mesma, porque o progresso moral da sociedade depende exclusivamente da sua independência», Albert Einstein.

Sónia Silva Franco
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