O busto de Cristiano Ronaldo

Muitos teriam preferido ficar sentados no sofá a criticar pessoas como o Emanuel, eu dou-lhe valor porque arriscou

05 Abr 2018 / 02:00 H.

Tendemos a ser muito condescendentes com os mais fortes e muito pouco benevolentes com os mais fracos. O busto que o madeirense Emanuel Santos esculpiu como forma de homenagear o melhor jogador de futebol do Mundo acabou por se tornar num pesadelo para si e para a sua família como os próprios retratam de viva voz num documentário recente. Este é apenas mais uma vítima dos inquisidores sociais que pululam nas redes sociais escondidos atrás de um computador arrasando por vezes vidas e carreiras só com o intuito de apontar o dedo, de humilhar e ofender. Prática cada vez mais comum.

Vamos por partes. O busto não é de facto muito parecido. Embora no caso da Arte, a ideia seja muito mais passar a visão do artista e a sua posterior expressão do que propriamente colocar uma imagem fotográfica é opinião generalizada que o trabalho pode não ter sido brilhante. Isso não implica, no entanto, que se tenha que partir para o insulto e para a gozação maldosa e pouco criteriosa. O que é um facto é que se a mesma peça fosse de um conhecido e renomado artista e que se o mesmo tivesse a boa imprensa que alguns têm nada disto se teria passado. Uns diriam que era fantástico só porque sim e outros teriam receio de criticar para não passarem por pouco entendidos. Mas aos olhos de todos o trabalho teria sido incomensuravelmente superior.

É uma pena que, por vezes, a própria sociedade que tanto reclama por oportunidades iguais, por interesses instalados e cunhas dos mais poderosos seja ao mesmo tempo a primeira a pisar os mais indefesos e a castrar as suas obras. O Emanuel (que eu não conheço) foi apenas um jovem trabalhador do aeroporto que num misto de sentimentos ao querer agradar e ao mesmo tempo vislumbrando uma oportunidade de carreira (levante a mão quem não faria o mesmo) tentou a sua sorte, fez-se ao barro e apresentou o que de melhor tinha seguramente para dar. Dirão alguns que não é suficiente, eu prefiro bater na tecla de que é a errar que vamos crescendo e é nos erros que nos vamos construindo. Muitos teriam preferido ficar sentados no sofá a criticar pessoas como o Emanuel, eu dou-lhe valor porque arriscou.

Neste Mundo de percepções ambíguas em que é tremendamente mais fácil e seguro ficar a criticar do que tentar construir alguma coisa temos que apoiar e dar valor aos que dentro das suas limitações e dificuldades tentam arriscar algo mais e não têm medo de ser felizes. O exemplo que temos que passar obrigatoriamente aos mais novos e aos principiantes é que fazer é melhor do que nada fazer e que é na prática que se adquire a experiência e ninguém nasce ensinado. Quem é que nunca errou? Que nunca fez algo que podia sair melhor? Eu próprio quando escrevo as minhas crónicas tenho a consciência do que era a minha escrita quando comecei e o que é agora. Mas mesmo aqueles textos pobrezinhos que publicava quando comecei não têm que me deixar envergonhado mas sim orgulhoso porque no dia em que tive oportunidade de fazer aquilo que gosto não olhei sequer para trás e tentei a minha sorte.

É fundamental, por isso, termos em atenção que aquilo que por vezes pode parecer uma simples brincadeira tem em certos casos repercussões muito negativas e prejudiciais para determinadas pessoas. Temos a obrigação de respeitar os outros, o seu trabalho, o seu esforço e ambição. Ninguém é perfeito, ninguém faz tudo bem e só não falha quem não tenta. Fazer criticas construtivas é de enorme valor para a sociedade, gozar , troçar e atacar é destruir os inícios de tudo. Não podemos permitir que isso aconteça e devemos apoiar e incentivar os nossos a melhorar, a serem mais fortes e a contribuírem para o engrandecimento da nossa Região. Só assim teremos mais casos de sucesso.

José Paulo do Carmo
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