O alvo a abater

Temos um PSD que se diz renovado, mas que afastou todos aqueles com quem podia aprender alguma coisa. Não basta copiar as técnicas se não temos a arte de dominá-las. É muito diferente organizar uma festa de paróquia do que pensar num evento à escala global

27 Set 2017 / 02:00 H.

Em semana de eleições, é tempo de fazer uma análise ao que tem sido esta campanha, tão diferente daquilo que conhecíamos até aqui. Diferente nos esquemas, nos métodos, nas armas, na propaganda e até no desespero.

É certo que atribuem a Napoleão uma das frases mais icónicas de sempre: «em política, o absurdo não é uma desvantagem». Hoje, face à realidade desta campanha, atrevo-me a discordar do homem que quis mudar o mundo. O absurdo e o ridículo andam de mãos dadas e a sociedade moderna do século XXI já não vai em cantigas, nem em hinos partidários, nem alimenta medos irracionais de perder a reforma.

Atirar areia para os olhos é uma “arte” que está em vias de extinção e há que aperfeiçoar o método de convencer o eleitorado, sob pena, como diria Saramago, de existir um corte geral de “energia cívica” por parte dos eleitores que “não vieram iluminar com os seus votos” as escolhas a fazer no próximo dia 1 de outubro.

A troca de ideias e de informação tem aqui um papel preponderante. A bem ou a mal, as discussões públicas, os grupos, as redes sociais, aperfeiçoaram a crítica e deixaram cair táticas utilizadas durante décadas que já cansam e não são novidade.

Todas estas transformações que correspondem a uma maior exigência por parte do eleitorado, levam alguns partidos a deambular entre as interrogações e as exclamações. O que se terá passado? Se ontem funcionou, então hoje não funciona porquê? As faltas de análise e até mesmo de capacidade, levam aos erros descarados, infantis, crassos e desnecessários.

Sentar e chorar. É de facto o que apetece fazer a toda e qualquer pessoa que tem memória. Ao longo de mais de 40 anos, o PSD habituou-nos a comandar a orquestra, a escolher a música e a abrir os bailes. Em 2017 a música é dos outros e este PSD tenta, da pior maneira possível e na impossibilidade de acompanhar o ritmo, fazer ruído e até pedir ajuda a simples tocadores de maracas. O que interessa é fazer chinfrineira. Atacar, criticar, apontar, difamar. É o que se tem passado essencialmente no Funchal, até porque, nestas autárquicas, elevou-se a principal cidade a verdadeiro campo de batalha, onde se esgrimem os argumentos mais toscos que há memória.

Não sou deste ou daquele partido. Não apoio este ou aquele candidato. Não é preciso pertencer a um grupo ou a uma ideologia para ter olhos na cara e exprimir opinião. Por imposição do meu trabalho, acompanhei muitos actos eleitorais, muitas campanhas e confesso que dá pena ver ao ponto que isto chegou. Pior do que isso: dá muita pena ter que dar razão às profecias do “Ti Alberto”.

Temos um PSD que se diz renovado, mas que afastou todos aqueles com quem podia aprender alguma coisa. Não basta copiar as técnicas se não temos a arte de dominá-las. É muito diferente organizar uma festa de paróquia do que pensar num evento à escala global. Parece que de repente, os pequenos tomaram conta do balneário e nem sabem jogar à bola. É uma mistura de futebol com polo aquático e golfe. O que interessa é atirar bolas. Alguma há de acertar... será?

As redes sociais são uma bênção para todos os partidos. A roupa suja, as mentiras, as campanhas medíocres e difamatórias, andaram mais ativas que nunca. Os panfletos anti napoleónicos são brincadeiras de garotos em comparação com estes meninos que produzem em massa a sua propaganda. Invadem, com perfis falsos, tudo o que é passível de ter um bom punhado de eleitores. Dividir e baralhar para reinar é chão que já deu uvas, tal como insistir na técnica de lamber botas velhas e cheias de mofo.

Sobre carecas e bonitinhos há muito para dizer e para perguntar. Foram meses intensos a tentar diabolizar um homem. Um único homem. Um simples homem. E eu pergunto porquê? O Cafôfo assusta porquê?! Nunca, em tempo algum, o PSD teve um alvo a abater tão “assustador” como o do candidato da geringonça madeirense ao Funchal. Que tem este homem de tão assustador? Ou será que ele representa algo que assusta verdadeiramente os herdeiros de um regime com mais de 40 anos?

Em vez de tentarem compreender o suposto fenómeno (não é difícil, acreditem), cometem, em grande escala, as mesmas asneiras do passado. Ajudam a criar fama, heróis e pretensos mártires. Lembram-se de Machico? Durante anos e anos, os manos Martins foram alvos a abater. O que sucedeu? Será que não aprenderam nada?

E nesta cruzada contra os “hereges” que “roubaram” câmaras (uma ofensa descarada a quem vota), pega-se com tudo e mais alguma coisa. É o caixote do lixo, é a florzinha no jardim que está a crescer para o lado errado, é a água que apareceu com umas manchas, é o mamarracho herdado, é a vereda, são os metros de alcatrão da estradinha, é o candidato apoiado pelo Costa (ser apoiado pelo Passos é melhor?!) enfim... anda-se num histerismo arrepiante para combater um indivíduo quando, na realidade, o combate deve ser feito com ideias, propostas concretas e grande sentido de responsabilidade. Medo do vazio? Será?

Para agravar a situação, temos por aí não candidatos (que em tempos idos eram figuras de segunda e terceira linhas) que estão possuídos por uma espécie de espíritos cruzados da Joana d’Arc e do Átila. Vestem o papel de virgens imaculadas que proferem palavras cujo intuito é queimar tudo à volta. Vamos a exemplos? Conotar a frase infeliz homofóbica de um velhote a uma candidatura, mesmo sabendo que não está relacionada, revela o desnorte e o desespero de tentar atingir de qualquer maneira o alvo a abater. Estes não candidatos (que também têm pais que já disseram coisas disparatadas) insistem na campanha diária a defender as suas damas. Tudo certo! Merecem aplausos pelo esforço que fazem em mostrar que afinal são da primeira linha! Gostava era que defendessem e discutissem com o mesmo empenho e frequência os assuntos relacionados com os cargos que ocupam, principalmente aqueles para que foram eleitos.

E enquanto há este desnorte, assistimos a um crescimento (a fazer fé nas sondagens) de certos líderes de méritos e capacidades duvidosas que vão à boleia (sorrateiros) desta estranha forma de vida que tomou conta da política madeirense.

Sónia Silva Franco
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