Nós íamos inventar o amor

Mas nada seria tão grande como o amor que cada um estava disposto a viver. Cada um daqueles rapazes e daquelas raparigas, cada coração escondido por detrás das roupas esquisitas tinha um desejo, um desejo puro de se apaixonar perdidamente

15 Abr 2018 / 02:00 H.

Houve um tempo assim, em que soube tudo, teria talvez 20 anos e queria tudo de uma só vez. Eu, a gorda das meias de renda pelo joelho, que sonhara ser transparente para desaparecer nas aulas de ginástica, passara à universitária de cabelos pelas costas que lia poesia em cima do terraço nas férias e ia ao cinema às segundas para ver filmes a preto e branco com histórias estranhas, mas cheias de significado.

E depois vagueava pelas ruas, às vezes comprava um gelado para ajudar a arrastar a indolência quase como aqueles grupos de adolescentes que, volta e meia, irrompem pelo centro comercial e olham para tudo de alto a baixo. Eu tinha a certeza que o mundo, tudo o que nele existia, começava comigo, com os meus amigos e as nossas conversas. O amor e a arte seriam reinventados como nos cafés de Paris e, do Funchal, chegavam as cartas do meu irmão, que era poeta e autor de um opúsculo sombrio, o Caruncho.

Nós sabíamos o que era bonito, o que tinha valor, os livros que deviam ser lidos e até como devíamos vestir. De preto, claro, de preferência surrado, usado e gasto, coisas tiradas das gavetas que, naquele virar da década, queríamos esquecer os néons, a euforia que a música pop trouxera, os cabelos com permanentes, a maquilhagem vistosa, as unhas pintadas. Ao natural como os livros que íamos todos escrever, assim, sem efeitos especiais, histórias de todos os dias, coisas de pessoas, de gente de carne e osso.

Mas nada seria tão grande como o amor que cada um estava disposto a viver. Cada um daqueles rapazes e daquelas raparigas, cada coração escondido por detrás das roupas esquisitas tinha um desejo, um desejo puro de se apaixonar perdidamente. E não podia ser aquele noivado longo a juntar dinheiro para dois quartos e cozinha ao lado da casa do pai, nem a poupança para a entrada num apartamento da cooperativa, nem a festa ou vestido branco. Seria mais, muito mais, seria além de qualquer romance vivido por dois seres humanos.

Não teria formato. Não teria o formato daqueles amores dos hippies, nem a leveza dos anos 80, não seria rígido como o andar para casar do Laranjal, seria nosso, único, uma coisa de filme de rapariga encontra rapaz e nunca mais o esquece e rapaz vai atrás da rapariga até o fim do mundo e os dois guardam o bilhete do autocarro onde se viram pela primeira vez. Eu guardava as entradas do cinema e durante anos mantive com muito carinho o bilhete da primeira vez que andei de metro em Paris. Nada era mais romântico do que guardar tralha.

Eu sabia tudo, até o que era amor puro e o amor lamechas das telenovela assim com a mesma convicção com que julgava ser capaz de definir o bonito, o que tinha valor artístico, o que era fancaria. Houve um tempo em acreditei nisso, tinha 20 anos, tinha muitas ideias, a maioria delas tolas e disparatadas.

Marta Caires

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