Na tua casa ou na minha?

O que será mais humilhante? Entrar no Palácio e discutir assuntos sérios ou fazer birra e bater o pé porque o local é simbolismo de um poder centralizador? Vivemos numa época de sensibilidades extremas e muitas vezes damos mais importância ao acessório e fútil do que àquilo que, na prática, realmente interessa.

16 Mai 2018 / 02:00 H.

Todos nós lidamos, a dada altura das nossas vidas, com situações caricatas que testam não só a nossa paciência, como servem para mostrar a nossa superioridade. O amadurecimento das decisões e até mesmo a força de caráter, pode ser encontrada nos segundos intermédios entre o dar um chapadão na tromba de quem nos ofende ou pura e simplesmente ignorar o insulto. É certo e sabido que enfrentar idiotas é quase sempre uma batalha perdida. Perdemos tempo e energia a tentar dissuadir ou argumentar com essa gente.

Mas quando valores mais altos se levantam, somos capazes de mover montanhas, atravessar dificuldades tremendas, ultrapassar obstáculos outrora impossíveis de dominar e, muitas vezes, engolir o próprio orgulho.

Cada um de nós tem as suas próprias cruzes, provações e desafios. De igual forma, que cada um de nós tem as suas próprias razões que nos levam a ultrapassar limites e a testar as capacidades.

Diariamente a nossa sensibilidade e bom senso são postas à prova até à exaustão. Seja no trânsito com um condutor agressivo ou mais distraído, seja no trabalho com colegas ou chefes prepotentes, ou seja numa fila de supermercado, com um outro cliente mais atrevido que, à cara podre, nos rouba o lugar. Reagir à ofensa compete única e exclusivamente a cada um de nós. E é essa opção que vai ditar o amadurecimento das decisões e da própria maneira de estar em sociedade. Para muitos, é tão mais fácil encher o peito e ameaçar com uma carga de porrada quem nos atazanou o juízo, enquanto que para outros, a via do diálogo aberto e sem floreados, ignorando as ameaças e as provocações, é sem dúvida o melhor caminho a escolher. E é nessa fração de segundos, entre a ação e a reação, que decidimos qual o caminho a adotar. A lógica e a necessidade são os ingredientes fundamentais para refrear qualquer temperamento.

Responder às provocações, mesmo não sendo verdadeiras, é um método que, regra geral, causa dissabores. Principalmente quando precisamos da outra parte.

“A necessidade obriga”, lá diz o povo, e esta ensina a morder a língua, mesmo que queiramos cuspir fogo.

Foi o que aconteceu, aqui há uns anos, quando entrei num gabinete para negociar melhores condições para terceiros e, para minha surpresa, dei de caras com o anfitrião da reunião com os pés em cima da mesa, num gesto de prepotência descomunal, do tipo “aqui quem manda sou eu”. Aquela atitude provocatória e até parva, incomodou-me, mas numa fração de segundos tive de decidir entre refrear a minha vontade de mandá-lo para uns lugares extremamente desagradáveis e a necessidade de sair dali com a vitória que tinha imposto a mim própria.

Ignorei aquela atitude francamente estúpida, reveladora das inseguranças e até mesmo da fraqueza de espírito da criatura, apelei a toda a minha calma e consegui levar a água ao meu moinho. Se tivesse saído porta fora logo no início da reunião, as pessoas que dependiam dos resultados iriam ficar extremamente desiludidas.

Não seria justo dar mais importância a uma atitude prepotente do que ao bem comum.

Isto para dizer que não concordo, nem entendo a birra daqueles que dizem colocar a Madeira e os madeirenses em primeiro lugar e, no final de contas, sucumbem às provocações, mesmo que sejam ridículas e sem qualquer fundamento prático.

A birra/teimosia António Costa/Miguel Albuquerque do “na tua casa ou na minha” (nem que fosse debaixo da ponte!) é absurda quando colocamos nos pratos da balança os assuntos que têm de ser discutidos e resolvidos. Condicionar e até mesmo eliminar o diálogo pelo BEM COMUM por causa de uma atitude alegadamente provocatória, revela falta de autocontrole e até mesmo de superioridade. Se o primeiro-ministro acha que marcar uma reunião no Palácio de São Lourenço é tipo o outro que pôs os pés em cima da mesa, então deixem. O que interessa mesmo é discutir as duas dezenas de questões pendentes e avançar nos dossiers que são importantes para a sociedade.

Passamos a vida, enquanto madeirenses, a engolir sapos, a reclamar e a reivindicar mais autonomia, mais controlo das nossas questões. Ultimamente, passamos a vida a mandar cartinhas (talvez uns postais resultassem?!), a dar pancadinhas suaves na mesa, a exigir demissões deste e daquele, a criticar o outro e a apontar o dedo e vamos deixar que um local defina a importância dos assuntos a discutir? É não ter mesmo mais nada para pegar, certo?

O que será mais humilhante? Entrar no Palácio e discutir assuntos sérios ou fazer birra e bater o pé porque o local é simbolismo de um poder centralizador? Vivemos numa época de sensibilidades extremas e muitas vezes damos mais importância ao acessório e fútil do que àquilo que, na prática, realmente interessa.

Sónia Silva Franco