Na prática a teoria é outra

Hoje, os cidadãos não confiam na Administração, nos Governos e nas outras instituições públicas e sentem uma clara insegurança

10 Mar 2018 / 02:00 H.

A crónica é dos estilos mais difíceis da escrita e exige domínio da língua, imaginação, criatividade e de preferência alguma ironia e algum sarcasmo. Afinal, tudo o que é difícil encontrar por aqui aos sábados, mas lá se vai tentando, para não perder a mão na pena, e quem sabe, mesmo assim, se consegue fidelizar alguns leitores. Ora quem nos deliciou ao longo da sua vida com crónicas do outro mundo, ou de outros mundos, foi Victor Cunha Rego. Por estes dias saiu, em livro, uma recolha dos seus melhores artigos em jornais portugueses e brasileiros com o sugestivo título “Na Prática a Teoria É Outra”.

Homem dos jornais e das letras, diplomata, político, sobretudo um livre pensador, Cunha Rego deixou-nos textos de uma análise e de uma profundidade que apetece sempre reler com particular deleite. Morreu no virar de página para este século após uma vida intensa e às vezes contraditória, mas sempre marcada pelo sinal da Liberdade. Essa Liberdade que ele sempre defendeu, corajosamente, com a sua pena, durante o antigo regime que o forçou ao exilio e logo a seguir à revolução do 25 de abril, quando alguns radicais, apoiados por forças externas, tentaram substituir a ditadura do Estado Novo por uma Ditadura Comunista. Estava a reler uma das suas crónicas intemporais, insertas no livro agora editado e deparei-me com esta opinião sobre os povos: “os italianos são imaginativos, os alemães determinados, os americanos pragmáticos, os japoneses disciplinados, os franceses racionais, os espanhóis idealistas, os polacos são bravos, os húngaros românticos, os suíços equilibrados. Os ingleses são cínicos, criativos e perfeccionistas”. Tudo isto a propósito de uma peça de teatro que ele vira em Londres sobre jornais e jornalistas, daí a adjetivação reforçada para os ingleses. E como definiria Cunha Rego os portugueses? Ora aqui está uma boa pergunta nos tempos que correm. Desenrascados? Parece que sim. Conformados? Cada vez mais. Resignados? Deve ser sina.

Não é por acaso que alguém nos classificou como um povo de brandos costumes. Falamos, gritamos, ameaçamos, mas na hora da verdade, contentamo-nos com pouco e recuamos à nossa zona de conforto, para usar uma expressão suave dos dias que correm. É a nossa idiossincrasia e talvez seja isso que nos faz tão apetecíveis e calorosos aos olhos de outros povos. É verdade que na prática a teoria é outra..., mas há momentos em que convém passar das palavras aos atos e ir em frente, mesmo contra a corrente.

Nos últimos tempos, no país e, também, por estas bandas, há claros fracassos e mesmo incúrias por parte de agentes públicos que deveriam merecer outra reação por parte dos cidadãos. Os incêndios do ano passado continente que provocaram a morte de mais de uma centena de pessoas, com claros falhanços no socorro e nas comunicações e o roubo de material de guerra em Tancos, com contornos ainda por explicar, são apenas dois exemplos da irresponsabilidade que grassa em vários setores da administração pública e do Estado. Na Madeira, as faltas constantes de vacinas e medicamentos nos centros de saúde e nos hospitais, com explicações pouco satisfatórias e a degradação de equipamentos públicos que custaram milhões de euros, como agora se viu com o temporal, são outros sinais de falhanços na prestação do serviço público e na administração do dinheiro dos nossos impostos. O Estado mete-se no que é da esfera da sociedade e demite-se do que é da sua inteira responsabilidade.

Hoje, os cidadãos não confiam na Administração, nos Governos e nas outras instituições públicas e sentem uma clara insegurança, temem os riscos e vivem ameaçados perante determinados acontecimentos. Quando se dão as ocorrências, protestam e barafustam, mas passado o calor do momento e a espuma mediática, tudo cai no esquecimento até à próxima tragédia. Oscilamos entre o grito lancinante e a lamúria conformista, em vez de sermos organizados e persistentes nas nossas posições e nas nossas revindicações até que as nossas razões sejam ouvidas e possam vingar. Somos demasiado individualistas e egoístas e com isso perdemos todos, porque só o associativismo, a cidadania ativa e a união de esforços podem pressionar os decisores públicos a uma melhor governança a bem da comunidade. Falamos muito e agimos pouco.

Já dizia Victor Cunha Rego que “na prática a teoria é outra” e tinha a razão do seu lado.

Escolhas

Quem?

A delegação da Madeira da Alzheimer Portugal que tem vindo a fazer um notável trabalho de instrução e sensibilização para a forma como as famílias devem lidar com as demências.

O quê?

Os programas Educamedia e Apoio Escolar Online na Região são exemplos de boas práticas de equidade pelo Conselho Nacional de Educação. Aplausos.

Onde?

No Largo António Nobre com a Rua do Favila, o histórico Fontanário e os seus belos painéis de azulejos devem ser recuperados pela Câmara do Funchal agora que a zona está a ser requalificada.

Quando?

Já a partir de terça e até sábado, mais um Festival Literário no Teatro Municipal tendo o jornalismo como tema principal. Para que a palavra continue a ter Palavra.

Porquê?

Em maio de 2011, fiz aprovar na Assembleia da República a extensão do subsídio de mobilidade ao transporte marítimo. Já passarem 7 anos e 3 Governos e a lei, ainda, está por regulamentar. Porquê?

Como?

Temos cerca de 5 mil estudantes a estudar em várias cidades do continente. Como é que o Governo Regional queria facilitar a sua vinda na Páscoa com um charter de apenas 144 lugares? Uma boa ideia, mas mal executada.

José Manuel Rodrigues Deputado do CDS na ALM