Morrer de pé como as árvores

A árvore é parte dela, parte de mim, parte de todos nós, dos domingos e das todas as vezes que descemos à pressa pela entrada da casa do meu avô, quando estávamos todos por aqui e eu tinha certeza de que éramos eternos

05 Nov 2017 / 02:00 H.

O incenseiro da fonte tem os dias contados, não há o que se possa fazer, agora é acertar tudo conforme a lei e esperar pelo dia, vê-lo cortado aos bocados e perceber que uma parte de mim irá com a árvore que, um dia, a minha avó plantou, tinha-lhe acabado de nascer a filha mais nova. São 80 anos, talvez um pouco menos ou um pouco mais. A história contou-me a minha mãe tinha eu 7 ou 8 anos, sempre achei que era bonita, sempre pensei que a minha tia Teresa merecia uma árvore.

Não sei o que pensou a minha avó, não a conheci, tenho imagens vagas de uma senhora de cinzento de quem herdei, já nos anos da faculdade, umas roupas antigas que tornei novas. Sei que era pessoa de rigor, nada de decotes e saias curtas, tudo como mandava o vigário no púlpito da igreja de Santo António. E sei que deixou uma árvore ligada ao coração da minha tia mais nova, a tia a quem contava segredos e dividia chocolates, de quem tenho saudades muitas vezes, que me deixou órfã pela segunda vez quando se foi.

A árvore é parte dela, parte de mim, parte de todos nós, dos domingos e das todas as vezes que descemos à pressa pela entrada da casa do meu avô, quando estávamos todos por aqui e eu tinha certeza de que éramos eternos. O tio Humberto seria para sempre alfaiate, a minha prima Ana professora, o Vítor bancário, as minhas tias nunca seriam mais velhas e a minha mãe e o meu pai também, teriam sempre 50 anos. Os únicos que iam crescer éramos nós, os irmãos, os mais novos. Acho que é que assim que pensam as crianças, todas as crianças, os que chegam por último e são felizes.

O meu irmão e eu éramos, ali debaixo da asa das tias e da mãe, pela fazenda encantada e cheia de mistérios debaixo da latada da vinha e no frio da adega. Entre as ameixeiras, no sol quente do Verão e nos dias de chuva, com cheiro a terra molhada no Outono e à flor das laranjeiras na Primavera. E por muitos anos, mesmo depois da infância, mantive esta fé de como continuaríamos juntos, ligados por laços inalterados e fortes, capazes de sobreviver a todas as tormentas. Eu acreditava que sim, que seria tudo igual, até as casas e as árvores. O incenseiro da fonte também, a minha mãe dizia que não se lhe podia tocar, estava no mapa.

Tem os dias contados agora que se descobriu que está doente e já se pediu o orçamento para o abate, o meu primo Vítor tratou do caso, sei que lhe custa, é dos que tem afeição a velharias como eu. Mais dia, menos dia, a árvore está no chão cortada aos bocados, o lugar vai ficar outro, mas isso não é novo. O Laranjal está mudado, muda todos os dias, há anos que é mais um sítio de memórias. Na loja do senhor Jaime sapateiro estão a fazer uma casa, a casa da dona Marita foi dividida em lotes e até o meu pai mudou os móveis.

Às vezes custa perceber como era tudo antes, antes do desenvolvimento ter subido encosta acima, nem eu sei precisar quando começou a reviravolta, quando aquilo a que se dá o nome do ciclo natural da vida nos começou a levar as pessoas, agora até as árvores.

Marta Caires

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