Manda-me uma carta

Incapacidade é quando estamos perante um problema e não temos a arte, a preparação e o engenho de o resolver, mas mesmo assim insistimos em mostrar que somos a solução. Regra geral, não é vergonha reconhecer humildemente a nossa incompetência para determinados aspetos. Aliás, a honestidade em sabermos quais são as nossas limitações, vale muito mais do que um punhado de intenções megalómanas, misturadas com falinhas mansas, de péssimos aspirantes a treinadores de bancada que foram retirados da sombra

11 Abr 2018 / 02:00 H.

Há uma linha muito ténue entre aquilo a que se chama de desleixo e incapacidade. A primeira pode ser exemplificada com o caso concreto de uma autarquia que, passado um mês após as fortes chuvadas, não arranja, nem manda arranjar estradas municipais condicionadas pelas derrocadas. As pedras continuam no mesmo sítio. Talvez à espera de eleições. Ou talvez à espera de novas chuvadas. Viva Machico!

O sentido do dever espelha-se em todas as ações, independentemente da sua dimensão. Seja mandar limpar três ou quatro derrocadas, alcatroar estradas em estado lastimável, ou angariar investidores para gerar emprego no concelho. Grandes ou pequenas, as ações têm implicações diretas na vida da população. Quando se colocam assuntos na interminável lista burocrática do “Coisas a Fazer”, depois dão-se casos surpreendentes (ou talvez não) como as quedas de árvores, acidentes de viação, danos materiais, etc.

O desleixo é um dos inimigos mais poderosos da chamada Coisa Pública. O «deixa andar», «está prometido», «vamos fazer», «está anotado», «chuta para a frente que logo se vê», é um mal generalizado que emperra e condiciona a vida das populações que se norteia nos avanços e recuos das grandes ou pequenas coisas.

Mas o desleixo não significa necessariamente incompetência e incapacidade. Há pessoas competentes (já o mostraram no passado) que pura e simplesmente desistem. Deixam-se assoberbar de papéis, papelinhos, burocracia, promessas, favores, negas e um sem número de fogos para apagar que acabam por ser manifestamente “engolidas” pelo tal sistema sem rosto e sem direções definidas. As prioridades tornam-se difusas e a vereda que ontem valeu não sei quantos votos, afinal vai ter que esperar mais uns anos. Talvez fique concluída na mesma altura do tão propalado ferry. Quem sabe?

Incapacidade é quando estamos perante um problema e não temos a arte, a preparação e o engenho de o resolver, mas mesmo assim insistimos em mostrar que somos a solução. Regra geral, não é vergonha reconhecer humildemente a nossa incompetência para determinados aspetos. Aliás, a honestidade em sabermos quais são as nossas limitações, vale muito mais do que um punhado de intenções megalómanas, misturadas com falinhas mansas, de péssimos aspirantes a treinadores de bancada que foram retirados da sombra. A mania das grandezas, quer em termos de aparente riqueza exterior, quer em termos intelectuais, continua a marcar passo nesta sociedade que tem dirigentes incapazes de bater com a mão no peito (ou dar murros na mesa), fazer o seu mea culpa e confessar que há assuntos que são demasiada areia para a sua camioneta.

Incapacidade é ficarmos dias à espera para reagir aos «motivos operacionais» que justificaram o cancelamento de voos para uma ilha refém do transporte aéreo. Não há barco, lembram-se? A 6 de abril, a RTP-Madeira noticiava que só na última semana a TAP já havia cancelado 10 voos de e para a Madeira devido aos tais motivos operacionais. No noticiário de 7 de abril, o número aumentou com o cancelamento de 4 voos da Easyjet. No mesmo dia, ou seja, 14 voos depois, o que é que se faz? O vice-presidente do Governo anuncia que mandou cartas de «insatisfação» para as duas companhias, ressalvando que não são cartas de protesto!

A 8 de abril (já depois das cartas), um grupo de estudantes madeirenses que ficou pendurado em Lisboa é notícia nacional. Sobe para 16 o número de voos cancelados.

A 9 de abril e por ironia de São Pedro, ventos fortes condicionam o aeroporto da Madeira – perdão, Cristiano Ronaldo.

Após 41 voos cancelados que representam milhares de condicionalismos para as centenas de passageiros, eis que a medida de fundo, a medida de peso, não é mover os lobbies de pressão (ainda existem ou foram esmagados pela renovação?!) ou falar grosso, mas sim mandar uma carta para juntar a todas as outras que foram enviadas a propósito dos preços quase que proibitivos das passagens aéreas. No meio das démarches, ainda houve lucidez para pedir uma audiência com o ministro da tutela e fazer com que os deputados da Assembleia da República trabalhem no assunto.

O problema dos transportes aéreos – e já que vamos continuar reféns dos mesmos – exige uma maior firmeza e rapidez por parte de quem nos governa. É que isto já não vai lá com falinhas mansas, nem com cartinhas. O primeiro «motivos operacionais» assim o exigia.

Lisboa tem a culpa? Lisboa anda no engonhanço e não resolve? Então e que outras atitudes podem ser tomadas por quem se sente constantemente prejudicado? Que instâncias superiores estão ao nosso dispor para meter Lisboa na linha? A paciência esgota-se e neste caso dos transportes aéreos, seja com a nossa trapalhada do subsídio de mobilidade, seja com os «motivos operacionais», já deu para perceber que este dossier requer muito mais habilidade, técnica e eficácia do que aquela que tem sido demonstrada até agora. Às vezes tudo o que precisamos é de pôr de lado as falinhas mansas, dar murros na mesa e arranjar soluções com a perícia de um fenomenal pontapé de bicicleta.

Sónia Silva Franco