“Free Fallin”

É a democracia em acção. Dirimam-se argumentos, clarifiquem-se posições e evite-se o recurso ao insulto e à insinuação

17 Out 2017 / 02:00 H.

Deixem que vos explique ao que venho. É com imenso prazer que retomo a minha colaboração nestas páginas. Quando surgiu a hipótese de voltar a escrever pôs-se-me a questão do “sobre o quê”? Depois de pensar um bocado, ocorreu-me a ideia de me socorrer das asneiradas que vou postando nas redes sociais e a partir daí fazer uma espécie de súmula de como vi os últimos dias.

Estas crónicas vão viver sob o nome de “Rede Social” e ora cá vamos:

1. Mas que péssima maneira de começar o mês. E não, não foram as eleições e os seus resultados porque sobre isso já está tudo mais do que dito. Refiro-me à morte de Tom Petty. O seu “Free Fallin” é um hino: “All the bad boys are standing in the shadows / All the good girls are home with broken hearts”;

2. O pós-eleições trouxe-nos de tudo e mais alguma coisa. Com uma certeza podemos ficar: pela boca dos partidos ganharam todos. Resta saber o que vão ganhar os cidadãos. Daqui a quatro anos voltamos a fazer o “deve e o haver” da democracia autárquica;

3. E caí... e caí... e caí... a Rui Gonçalves faltou-lhe o tapete e, porque da política tem o entendimento de uma certa contenção, bateu com a porta antes que lhe a batessem a ele. Ali ao virar da esquina Eduardo Jesus foi posto a andar e a Sérgio Marques criaram-se condições objectivas para que saísse... os bons de ontem caem hoje do trapézio, e sem rede;

4. E se uns caem outros há que, à força de braços e desavergonhadamente, lá se vão, periclitantemente, levantando. Lino Abreu voltou ao Parlamento Regional. E no mesmo dia em que Rui Barreto deixa vacante o lugar de líder parlamentar. E se...? Não!

5. No aeroporto Cristiano Ronaldo o vento continua a fazer fintas que resultam em grandes golos... na própria baliza. Continua a faltar um plano de contingência que minimize desconfortos, de maneira a que os que nos visitam não partam com a ideia de que os deixamos ao Deus dará. É urgente que se sentem empresas de handling, transportadoras, autoridades aeroportuárias e prestadores de serviços;

6. No dia 5 de Outubro pego em Mário Soares e reescrevo-o à minha maneira: Laico, Republicano e Liberal;

7. Desde criança que a minha mãe me ensinou das diferenças entre homossexuais e “bichas”. Que os homossexuais nos mereciam todo o respeito e que o resto era de pouca valia. Fui convidado para participar no espectáculo da Gay Parade. Fi-lo porque a homofobia e a xenofobia me fazem impressão. Aceito-as mas acho-as defeito de formação. Fui, levei a família e participei. Às “bichinhas” que nada fazem fica aqui o meu desprezo. A quem os tem no sítio fica aqui a minha admiração pela coragem da organização;

8. Ricardo Vieira abandona a Assembleia Legislativa Regional, que fica muito mais pobre. Goste-se ou não, concorde-se ou não, será sempre uma referência da Autonomia. Daqui vai um grande abraço para um amigo de longa data com quem tive o privilégio de estar na mesma trincheira. Bem hajas Ricardo Vieira;

9. Para que fique bem claro eu não tenho opinião sobre a independência da Catalunha. Tenho, isso sim, opinião sobre o direito que os catalães têm (ou outro povo qualquer) de referendar esse assunto. Obviamente que o referendo não foi feito em condições do qual se possa extrair um mandato. Nem vou aqui olhar para as razões e culpas porque estas são por demais evidentes. Só queria recordar que foi ao arrepio da lei que se restaurou a independência em 1640, que se instaurou a república em 1910, que em 1926 a revolução do 28 de Maio instaurou uma ditadura e que em 74 o 25 de Abril nos deu a liberdade. Só espero que em Espanha prevaleça o bom senso, a liberdade e a democracia;

10. O DN/Madeira fez 141 anos. 141 anos é uma grande idade. Eu acho que já nem se deve dar parabéns a quem faz 141 anos. A quem foi transversal a gerações e gerações de madeirenses, a quem é uma referência incontornável na história desta terra que todos, cada um à sua maneira, amamos e veneramos. Dia sem Diário não é dia;

11. Eis-nos chegados ao momento de se saber de onde vem o Governo Regional e para onde vai. As invocadas incompetências do passado afinal desaguaram na atribuição de uma secretaria a Paula Cabaço, detentora de um excelente currículo para a pasta... da Agricultura. E depois Pedro Calado. Entra como quer. Limpa Jesus e Marques tornando-se num híper, super, mega Secretário com todos os poderes. Com tantos, mas tantos poderes, que ainda antes de o ser já o era, pois presidiu a uma reunião do Governo na Quinta Vigia ainda antes de ter tomado posse. Diz por aí que o lóbi do betão, depois de apertados os calos que tinham que ser apertados, entra pela porta grande;

12. A meio da semana pus-me a pensar que, se calhar, Miguel Albuquerque perdeu uma oportunidade de ouro para clarificar a seu favor a situação política regional. Demitia-se de Presidente do Governo, com a desculpa dos maus resultados nas autárquicas, e levava isto para eleições antecipadas. Matava uma data de coelhos com uma cajadada: o PS, que tinha que avançar com Carlos Pereira, Cafôfo e “sus muchachos” que ficavam apeados e, se conseguisse repetir o resultado das últimas regionais, limpava a oposição interna.

13. E o PS continua igual ao PS. Confuso? As velhas guerras de sempre entre quem está e quem não está mas gostaria de estar. Não seria mais simples alguém ganhar aquilo e fazer, mas fazer mesmo, tudo pela unidade de todos? Não é objectivo de qualquer partido haver uma certa sintonia interna que olhe para as dissidências democraticamente como um bem e não como um mal? Não duvido em nada da competência técnica de Carlos Pereira. Nem por um minuto. Mas não lhe reconheço qualquer habilidade para a política. Não sei se a candidatura de Emanuel Câmara se destina a lançar um tapete vermelho a uma outra a Presidente do Governo por parte de Paulo Cafôfo. É um cenário possível. Como há uma série de outros que o são. O que sei, é que é um direito que assiste ao Presidente da Câmara do Porto Moniz. É a democracia em acção. Dirimam-se argumentos, clarifiquem-se posições e evite-se o recurso ao insulto e à insinuação. Interessante ver a sintonia entre Luís Vilhena (PS) e José Prada (PSD);

14. E os fogos. Concelhos inteiros calcinados. Vidas perdidas. A demissão da Ministra já nem é uma questão política, é uma de questão de decência;

15. E finalmente e na RTP 1 lá passou mais uma tourada. Gajos vestidos de collants até ao pescoço com pompons, a espetarem merdas num bicho que não lhes fez mal nenhum. Quem gere o canal pago por todos nós deve achar que aquilo é “serviço público”. Ah heróis!

Nuno Morna

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