Férias, agora a valer

De todas as viagens que fiz ficou sempre qualquer coisa em casa: o pijama, a escova de dentes, a escova do cabelo...

02 Set 2018 / 02:00 H.

O avião veio cheio e a fila para entregar a bagagem era grande, mas isto agora é o normal. Não há lugares vazios, acho que só nas fotografias e é preciso imaginação para encontrar um ângulo onde não se veja umas quantas pessoas a esticar os braços para tirar uma “selfie”. E a confusão começa logo no aeroporto se se descontar aquela loucura ao sair de casa com o táxi à espera – às cinco e meia da manhã não se pedem boleias - e eu a ver se faltam documentos e a voltar atrás para ir buscar o telemóvel.

De todas as viagens que fiz ficou sempre qualquer coisa em casa: o pijama, a escova de dentes, a escova do cabelo... Coisas que fazem falta, mas hei-de de dar por isso mais adiante que o avião estava à pinha e tive mais o que pensar. Desta vez não havia revista com o catálogo dos perfumes e como gosto de ver aquilo dos perfumes, dos colares de pérolas Majorica e dos relógios. Nunca compro, mas a revista faz-me lembrar os tempos em que viajar era coisa de ricos, de emigrantes ou de estudantes universitários pelintras como eu.

Ao menos serviram o lanche, que já foi melhor. Antes vinha num tabuleiro, tinha pão, carnes frias, salada de frutas e um doce e no fim passava a hospedeira a dizer “chá, café”. No meu tempo já não diziam a parte da “laranjada”, mas serviam sempre um sumo de laranja meio amargo, cujo sabor ainda tenho na memória. Agora é tudo mais frio, feito mais a correr e as pessoas levam a bagagem de mão em tróleis. E eu tenho uma certa saudade de ver os turistas a arrumar caixas de estrelícias nas bagageiras ou os emigrantes a ajeitar os sacos de plásticos com espada congelada debaixo do banco.

Desta vez não me coube um lugar à janela, que é sempre melhor para ver as formas das nuvens, o mar, depois a linha de terra e no fim os telhados de Lisboa antes do avião tocar a pista e ouvir o anúncio de “senhores passageiros acabamos de aterrar no Aeroporto de Lisboa”. É o momento em que sinto que as férias estão a começar, agora é a valer. Estou longe de casa e vou estar duas semanas por aí, em passeio e em lugares onde nunca estive e com aquela ideia de ser livre para acordar depois das dez da manhã. Não é que queira, mas é bom pensar que posso e nas férias cabem tantos luxos como não ter pressa.

Também posso ler em dois dias o livro que trago, que é pesado e grosso ou ficar a ver o dia acabar, que é o que me ficou das férias da adolescência, aquelas que terminavam em cima do terraço a ver os vizinhos a descer do autocarro com os sacos de praia ou as pastas do almoço. Eu só quero um intervalo, só não sei se há espaço tanta é a gente que cruza as portas dos aeroporto de Lisboa e procura um táxi. Aqui à chegada sou mais um, sou estatística do turismo, essa indústria que criou em nós desejos de ter um intervalo e de ir correr mundo atrás do antigo, do pitoresco, do que é único e bonito.

Sou turista como aquele casal de holandeses que acabou de levantar as malas do tapete e leva pela mão uma menina loura, como todos por quem passei. Queremos todos o mesmo: que as férias tragam novidade, o golpe de asa que falta à nossa vidinha de todos os dias. Eu satisfaço-me com um passeio de carro estrada fora, há quem só se sinta feliz com uma selfie na Torre Eiffel ou no Dubai, quem sonhe com Oslo ou Barcelona e queira prova que lá esteve. O mundo agora é assim, o que existe é o que está nas fotografias e podia continuar a falar destas encruzilhadas existenciais, mas estou de férias e, de férias, não apetece pensar.

Marta Caires

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