Fazer música às carreiras

Diria aos naturalmente preocupados fãs para estarem descansados porque a personalidade do “showbiz” a quem prestam veneração não vai presa. Quando muito pagará uma multa e os direitos de autor aos verdadeiros donos das canções que andou cantarolando
por aí

29 Set 2017 / 02:00 H.

O que se passa com o nosso Júlio Iglésias, salvo as devidas e grandes proporções? Em que raio de embrulhada se haveria de meter o cantor romântico, talvez com mais público e seguidores fieis no nosso país?

Ninguém contesta o facto do Toni Carreira interpretar músicas de outros. Michael Bublé, por exemplo, tenho ideia que também apresenta covers de Frank Sinatra. E tantos mais por esse mundo fora. Não é esse o problema que agora gerou uma acusação pelo Ministério Público. Tornada incómoda pela apresentação de argumentos probatórios que parecem, à primeira vista, concludentes. São várias as canções que parecem iguais e são anteriores às utilizadas pelo português.

A questão é de outra ordem. O que o artista nacional não pode é subtrair àqueles a quem se devem as obras dizendo que são suas. Provavelmente não serão. E essa ousadia ou imprudência (a ser verdadeira) é que pode vir a ser considerada crime se vier a ser demonstrada, naturalmente.

Os indiciados presumem-se inocentes até prova em contrário. Mas quando as evidências começam a aparecer fica difícil não haver a tendência de tomar partido, fazendo juízos imediatistas, por vezes precipitados.

Não creio que seja este um desses casos, sendo tão flagrante a questão apresentada, que até o denunciado já veio admitir que prevaricou tendo se penitenciado publicamente. Arrepender-se, fica bem, mas não vai chegar.

No fundo, este imbróglio até poderia ter mais a ver com o seu alegado compositor já que, calculo, sem nenhuma certeza, será o nome dele que aparecerá nos discos ou nos cd`s como o autor das obras copiadas. Mas, até porque já aconteceu no passado, poucos vão acreditar que o cançonetista de nada sabia e não era conivente. Aliás, com veio a parecer na conferencia de imprensa que concedeu, a propósito, posteriormente. E, mesmo que assim não fosse, não seria afastada a suspeita de usurpação e contrafacção que lhe são dirigidas e apontadas.

O que não se percebe é esta presunção algo arrogante e vaidosa de considerar seu o que na verdade não é. O agora acusado poderia ter adoptado e beneficiado daquelas cantigas na mesma, pagando direitos aos seus efectivos proprietários e considerava-as, em vez de suas, meras adaptações. Teria sucesso igual ou semelhante junto ao seu público e o que pagaria aos verdadeiros criadores não lhe faria muita falta.

Toni podia ter evitado isto. E se foi induzido ou mal influenciado, eventualmente não merecia. Não aprecio o género mas reconheço grande valor ao coleccionador de êxitos que nos inúmeros espectáculos que deu atraiu sempre plateias que encheram pavilhões e outras salas em Portugal, na Europa e até noutras partes do mundo. E levou o país consigo, sobretudo para junto da nossa diáspora, dos nossos emigrantes.

Mas esta faceta, que agora transparece, caso a acusação se confirme (o que face à acumulação de informações e dados vindos a público parece inevitável), não abona a favor do seu currículo e do seu percurso, já longo e recheado de sucessos. O popular interprete ainda se vai defender. E esclarecer. E penso que não deixará de acalmar os seus leais admiradores e abrandar os malefícios que uma situação destas sempre acarreta.

No fim o seu público manter-se-á fiel e nem vai querer saber se o seu ídolo tem ou não razão. Mas, cautelarmente, vamos esperar para perceber como isto acaba. Creio que terminará numa multa e num acordo com os que detêm verdadeiramente a paternidade das peças em questão. Mas abala o carácter da pessoa e, de certa forma, envergonha-o. Isso é inequívoco e incontornável.

Uma última consideração em relação ao delator. Nesta matéria não são só os lesados no seu património que têm a possibilidade, ao abrigo da lei, de tentar junto aos tribunais ver ressarcido o que a justiça lhes permite exigir, quando abusivamente o que é seu for utilizado por outros sem o seu acordo. Qualquer pessoa, singular ou colectiva, pode fazê-lo. Mesmo que não tenha sido atingido ou prejudicado. Foi o que aconteceu agora, com esta queixa apresentada por uma entidade que não creio ter sofrido qualquer dano. Aparentemente. Pode não ser bem assim. Estranho é que, passados alguns anos, nenhum dos verdadeiros responsáveis pelas melodias supostamente imitadas tenha exercido esse direito com mais razão de ser e toda a legitimidade. Ou, se calhar, já o fizeram e resolveram os seus casos. Restando agora caladinhos no seu canto.

Diria aos naturalmente preocupados fãs para estarem descansados porque a personalidade do “showbiz” a quem prestam veneração não vai presa. Quando muito pagará uma multa e os direitos de autor aos verdadeiros donos das canções que andou cantarolando por aí.

A proposta de acordo que foi anunciada e não aceite pelo visado, pode ser só o princípio, já que cada um dos efectivamente afectados, os que realmente inventaram, escreveram e compuseram, têm o direito de interpor acções com pedidos de indemnização caso não se acertem extra-judicialmente com o hipotético plagiador. Há assim uma forte possibilidade de se arrastar por muito tempo e por muitos anos este processo e as eventuais iniciativas que vierem depois. E convém não esquecer que sendo crime público não serão eventuais futuros entendimentos que o interromperão. Seguirá os seus trâmites independentemente daqueles. E acresce que a reincidência é um factor agravante.

Mas seja como for nada o impedirá de voltar a subir aos palcos, encher recintos, e saciar a avidez das aficionadas, quase todas mulheres, apreciadoras daquele jeito sentimental de entoar trechos musicais, do intocável penteadinho que é fonte de eterna juventude, do inegável talento e da música que Carreira, às carreiras, pariu para cantar e encantar tantos portugueses(as).

João Cunha e Silva
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