Estados críticos

«O povo não tem educação. O povo não foi educado», dizia-me há dias um senhor de Santa Cruz do alto dos seus 70 anos. Tentava justificar com a alegada ignorância esta espécie de Tiki-taka que se apoderou da vida política. A bola vai parar sempre aos pés dos mesmos

13 Jun 2018 / 02:00 H.

Exemplos. São bem poucos os que se destacam na sociedade da atualidade que basta um qualquer gesto, outrora normal, para construir a imagem de um herói à escala global. A falta de referências é gritante nos dias de hoje. Os valores e as regras começam a ser desvirtuadas em casa, na escola, no trabalho, na vida pública e na esfera privada. “Se os outros não fazem, vou fazer porquê?”. A justificação tanta e tantas vezes repetida por aqueles que embarcam nesta via desregrada, absurda, incoerente.

Exemplos que faltam em todos os patamares da nossa vida porque ninguém é perfeito, mas dentro dessa imperfeição humanamente aceitável, surgem os oportunistas sorridentes cheios nada e repletos de coisa nenhuma. Jogam com a memória, acreditam piamente que o povo é burro e que basta um punhado de lugares comuns para cativar, seduzir, açambarcar numa qualquer ideologia indefinida que só serve para tirar a visão dos que se deixaram levar nesse barco sem rumo traçado, impreparado para as tormentas que hão de vir.

E as pessoas tornam-se cada vez mais sós. Cada vez mais ilhas. Presas numa qualquer artimanha cheia de névoa, incapazes de se libertarem dessa canga pesada que ajudam a arrastar.

«O povo não tem educação. O povo não foi educado», dizia-me há dias um senhor de Santa Cruz do alto dos seus 70 anos. Tentava justificar com a alegada ignorância esta espécie de Tiki-taka que se apoderou da vida política. A bola vai parar sempre aos pés dos mesmos. E os motivos também são sempre os mesmos: por falta de alternativas, por hesitação dos mais capazes, por medo, por desinteresse sobre a Coisa Pública, pela falta de espírito de missão, pelo “não vale a pena que não tenho padrinhos” e por carreirismos especialistas em urdir implacáveis teias de interesses que prendem e sugam todos aqueles que lá caem. E muitos, os que não conseguem escapar, não têm outra alternativa senão vender a alma ao Diabo.

E dos exemplos ou da falta deles, temos uma outra variante. Ela rodeia-nos e consome-nos de uma forma absolutamente atroz. É capaz de ser uma tábua de salvação ou o nosso maior castigo. É a hipocrisia que domina o quotidiano das gentes comuns, como daquelas que assumem particular lugar de relevo na sociedade condenada a sorrir sem ter vontade, a aceitar, resignada, decisões revoltantes, a aplaudir, sem convicção, desfiles apoteóticos de questionáveis personalidades que nos atiram pozinhos de perlimpimpim.

Hipocrisias que nos trazem desculpas para tudo, em que são apresentadas como novidades ideias, sugestões e factos de um ontem que teima em ser remetido ao esquecimento.

Jogar e brincar com a memória coletiva é um dos truques que tem conquistado cada vez mais seguidores. O que ontem foi, é logo condenado a ser esquecido neste presente imediato, sôfrego e intenso.

Uma das consequências mais diretas da hipocrisia é esta estranha dormência que paira no ar. E as pessoas tornam-se cada vez mais sós. Cada vez mais ilhas. Sem vontade para dizer basta. Sem força para se fazerem ouvir.

São estados críticos neste estranho mundo de hipocrisias diárias que pairam sobre o nosso ímpeto como uma neblina implacável.

Sónia Silva Franco
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