Esquecer as coisas do trabalho

Nós começamos depois do barulho, aí pelas oito da noite e já cansados das coisas do trabalho

04 Fev 2018 / 02:00 H.

Nadar liberta-me, acho que é isso. Ando há cinco anos a fazer piscinas, para trás e para frente, crawl e bruços e costas e não treino para recordes. Sou uma senhora de meia idade, já era uma senhora de meia idade quando comecei. Sou assim como as mulheres que vão buscar os filhos ao fim do dia, quando a piscina fervilha de miúdas e miúdos, há gritos e mergulhos e pais apressados.

Nós começamos depois do barulho, aí pelas oito da noite e já cansados das coisas do trabalho. As coisas do trabalho cansam e custam a esquecer; a água ajuda, mais o azul dos azulejos e o esforço físico, agora pernas de costas, agora 100 de bruços e por aí fora até dar 1600 metros de piscinas e um peso nos ombros. É garantido, nadar dá sono e diz que faz bem a tudo, é um desporto completo, mas não foi por isso que cá cheguei.

Eu vim atrás de uma ideia, de um plano que tive aos 12, 13 anos, dos muitos que fabriquei a ver se me resgatava da adolescência de dias iguais em cima do terraço a olhar quem descia do autocarro ou a pensar como seria uma matiné na discoteca, como seria tudo o que eu não tinha. A minha mãe não deixou, as mães do meu tempo eram assim, não deixavam e pronto. Não mudavam de ideias, não se comoviam, tomavam estas decisões de partir o coração e seguiam em frente.

A minha mãe não sentia remorsos, não cedia a lágrimas grossas. As meninas não praticavam desportos, não ficava bem e havia uma lista extensa de assuntos que não caíam bem a uma rapariga, como se o mundo fosse mais pequeno para as meninas. E por ser em tamanho mais pequeno, não tive uma modalidade, nunca acampei e a primeira vez que dormi fora de casa foi em Janeiro de 1990 quando me mudei para Lisboa por causa do curso. Tinha 18 anos, quase 19 e essa noite rematou um dia de muitas experiências.

Uma boa parte da minha desvantagem vinha daí, daquele código intrincado de coisas que se podiam e de coisas que não se podiam fazer, dizer ou viver. Eu sei que a minha mãe não fez por mal, queria proteger-me e no essencial não me falhou, nunca e em circunstância alguma. Com medo que me afogasse num dos muitos poços que havia pelas fazendas, inscreveu-me dois Verões seguidos em aulas de natação da escola industrial. Os monitores queriam que fosse para a natação, mas isso ficava além do que permitia a minha mãe e a vida lá por cima, nos confins da cidade.

Ser menina remeteu-me a uma redoma. O mundo acontecia do lado de fora e era estranho. E o que tem tudo isto a ver com nadar? Tudo, quase tudo. Nadar é um assunto antigo, um plano que levou 30 anos a concretizar-se, que chegou quando nem eu imaginava que ainda ia a tempo de experimentar. Nadar é para os novos, para os miúdos que os pais e a mães da minha idade vão buscar à piscina, mas é também para mim e para os outros, os que chegam depois do barulho aí pelas oito da noite e nadam 1.600 metros, mesmo cansados com as coisas do trabalho, que são as que custam a esquecer.

Marta Caires

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