Enquanto não chove

Quem tem cães já reparou que à nossa chegada perto deles, os melhores amigos do homem cheiram as pernas dos circunstantes. A primeira razão é simples, é lá que eles estão. Mas há uma segunda.

08 Set 2017 / 16:33 H.

Enquanto não chove e não temos de dar aquelas corridinhas tolas que fazemos por segundos quando a aguinha que vem do céu nos apanha desprevenidos, prolonga-se a “silly season”. De fora fica a chuva miudinha. Dessa temos todos os dias, o ano inteiro.

Quem tem cães já reparou que à nossa chegada perto deles,

os melhores amigos do homem cheiram as pernas dos circunstantes. A primeira razão é simples, é lá que eles estão. Mas há uma segunda. Conforme posso testemunhar, e tantos outros com certeza também, isso acontece muito mais connosco do que com as mulheres.

Às senhoras quase que nem ligam.

Quando não vamos a pé, chegamos de carro por exemplo, a primeira coisa que os cachorros fazem, antes mesmo de cumprimentar os donos, - o que por momentos nos põe a duvidar se seremos efectivamente “the best friends” ou tão só aqueles que lhes dão de comer, - é cheirar as jantes da viatura e, logo de seguida, dar uma mijinha em cima delas. Não por necessidade fisiológica, mas porque sim. É uma espécie de assinatura. Nós assinamos, eles mijam. Ditou assim a mãe natureza.

Mas porque será que eles tanto cheiram as nossas calças? Tenho para mim que a razão é simples. Se eles urinam nas rodas do automóvel porque não haveriam de querer repetir a proeza nos nossos “pneus” também? Se calhar têm receio de levar um arregaço de beiças do patrão. Pode ser. Mas a verdade é que me parece que eles não vão nessa porque se apercebem que o acto já está consumado. Sim, já alguém o fez antes deles. E os momentos que se seguem, para os pobres dos animais, são de alguma angústia. Quem será o outro que marca terreno nas canelas do dono? Onde é que ele está? Será que vem para aqui? O chefe gostará mais dele do que de nós? A dúvida e a ciumeira ficam instaladas. E isso não abona nada no bom relacionamento que entre senhorio e o maior amigo deveria sempre existir.

Chegados aqui dir-me-ão, ó tótó, isso pode ser contigo que te deves babar quando fazes as tuas necessidades, não connosco que nem sujamos, nem molhamos, o que está por cima das ceroulas! Pode ser. Mas, pelo sim pelo não, faça a experiência. Ponha-se nu. Calma. Tem de estar sozinho. E em casa. Não se vai despir no trabalho ou no restaurante. Bem, esperemos que não. E experimente fazer xixi para a sanita. Se a dita estiver com mais água do que deve, como

é costume aliás, leva com

um chuvisco de respingos que

o obrigam a afastar ou levantar

as pernas, numa encenação

que quem visse, diria próxima de

uma dança vodu.

Mas mesmo que a latrina não tenha muita água, os pingos já são em menor número, mas acontecem na mesma.

Se for num urinol, experiência difícil de acontecer, já que é suposto não haver penicos de parede em casa e você não deve estar disponível para se pôr exactamente como veio ao mundo num que seja público, mas com a fértil imaginação e o que a física lhe ensinou, facilmente chegará à conclusão que a coisa deve piorar substancialmente.

Posto isto, imagine-se com roupa. Sim, porque é com roupa (suponho) que urina a maior parte das vezes. Seja na retrete, seja na peça sanitária pública que só os homens utilizam, como não sente os salpicos nem se dá ao trabalho de dançar. Até assobia.

E impávido e sereno aguarda que a inevitabilidade mictória acabe, sacode o dito e não tem a menor ideia que acabou de dar um banho ao vestuário exterior que cobre as pernas e rematou com mais do seu desajeitado abano final.

Se a calça é desportiva vai a lavar e resolve-se o problema. Agora se é de fato? Ou do género? Essas só vão à lavandaria quando o rei faz anos! E quandos vão, são lavadas a seco. Nem pode ser de outra forma.

Concluindo, mal sabem os grandes companheiros do pessoal que, afinal, quem brota borrifos amarelados na vestimenta inferior do dono não são cães rivais ou do vizinho, mas o próprio. Então, pensarão consequentemente os coitados dos bichos, porque é que não o faz também nos pneus dos carros? Cá para nós, sabemos que uns quantos mijar, até que mijam. Mas isso é melhor guardar mesmo só para a malta. Não vá os pobres canídeos virem a saber do que são capazes os inesperados concorrentes. E, diminuídos, entrarem em depressão.

Para evitar tudo isto, perca a vergonha, peça licença, invente uma desculpa do género “vou mudar de sexo brevemente”, vá à casa de banho das senhoras (porque as sanitas das dos machos não são para gente) e faça como elas, apoie as nádegas no assento. O que não deve nunca experimentar é sentar-se num urinol. Por variadíssimas razões e mais uma. É porque pode ficar lá preso e ter de o levar quando estiver de regresso ao lar, doce lar. E, pior do que isso, ver-se obrigado a explicar.

PS: Encerra com este texto o período brincalhão do mês de Agosto. Quando a maioria das pessoas, estando de férias, tem pouca paciência para assuntos sérios e maçadores. Este já entra por Setembro dentro porque não consegui escrever fosse o que fosse na semana que nos entristeceu a todos. Espero regressar à normalidade na próxima sexta-feira. Entretanto podem mandar suspender os pedidos de internamento.

João Cunha e Silva
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