Enjaulados

Não somos o Dubai, não temos petróleo, nem diamantes, os orçamentos da Região não são elásticos, o contacto pessoal, abracinhos e sorrisinhos não geram riqueza, então... de onde virá o dinheiro para cumprir as borlas? É que nem é preciso ter dois dedos de testa para perceber que se aumentamos de um lado, temos que tirar de outro.

05 Set 2018 / 02:00 H.

Há quem aprenda com os erros do passado e há quem insista em plagiar, de forma mais ou menos atabalhoada, esses mesmos erros. Quando não se tem a capacidade ou o interesse de aprender com as cabeçadas, volta-se uma e outra vez a cair na mesma asneira, mas desta vez de forma consciente.

- É bem feito! Eu avisei!

É verdade, mas de que serviu? Se calhar, até há gente que sente um estranho prazer em bater continuamente com a cabeça na parede, mas deixo estes casos entregues à consideração dos especialistas. Umas consultas no privado podem resolver o problema, já que à espera do hospital (velho ou o novo) dava tempo suficiente para dar cabo de umas quantas paredes que andam por aí e não queremos doidos à solta. Não é bom para o turismo, aquele que ainda está à espera de umas quantas cartas de Lisboa sobre os transportes e subsídios.

Muito provavelmente queremos doidos devidamente acompanhados e quiçá disfarçados que digam patetices que ora nos deixam incrédulos, ora nos deixam divertidos, fazendo lembrar o cómico ministro da Informação iraquiano que, pela sua performance, virou paródia mundial.

Aqui há muitos anos, nas ruas do Funchal, havia um doido que dizia ser presidente. Todo o mundo ria, longe de imaginar que algumas décadas depois, seria mesmo possível existir gente, com um parafuso a menos, a alcançar esses e outros cargos.

- É bem feito! Eu avisei!

Para o bem e para o mal, é a Democracia a funcionar em todo o seu esplendor.

Doidos à parte (ou talvez não) para os lados do Lugar de Baixo fez-se uma marina que custou milhões de euros que saíram dos bolsos de todos nós. O povo avisou. O povo protestou. O povo até falou na força das ondas e de outros fenómenos cujos termos técnicos não dominava, mas eram daqueles que “deitam isto tudo abaixo”. Mas os homens habituados ao mar e ao calhau não tinham canudo, nem eram senhores doutores, nem engenheiros. As suas mãos calosas – as tais do Hino, lembram-se? – apenas serviam para produzir e fazer cruzinhas nos boletins de voto.

Voltaram os protestos, mas desta vez por causa de umas jaulas que ora vão estar aqui, ora vão estar acolá. Se não há coerência na comunicação, como ousam criticar aqueles a quem chamam de “mal informados” e “agitadores”?

Mas o povo também quis um helicóptero de combate aos fogos e sempre foi dito que não podia ser, que as nossas montanhas eram complicadas, que era impossível, que não seria próprio. Anos depois e tal como está espalhado por todos os cantos da ilha em cartazes, o PSD cumpre aquilo que o outro PSD sempre disse que não era viável. É de louvar a tentativa deste novo PSD que não tem problemas nenhuns em contradizer o antigo. Mas... a que custo? É que para pedir “batatinhas” há que saber negociar e essa habilidade que se estende à criação de lobbies em Lisboa ficou-se pelo velho PSD. Se há gente com problemas de memória, António Guterres, socialista, pode confirmar, já que foi chamado de “melhor primeiro-ministro para a Madeira”.

A renovação tem destas coisas. Prometeu uma ligação marítima, pediu dinheiro a Lisboa, levou com a porta na cara e afinal ficamos a saber que se tratou de um simples teste. Prometeu o helicóptero, mas pediu financiamento a Lisboa. Uma vez mais, levou com a porta na cara e como será daqui para a frente?

Ou seja, prometer é, sem dúvida, super fácil. O mais difícil é arranjar meios e jogos de cintura para cumprir e manter, caso contrário ficam enjaulados, presos nas suas próprias armadilhas.

Aprender com os erros não é para todos, principalmente quando a definição de “erro” é diferente daquela que vem nos dicionários. Mas talvez isto sirva de lição para um ou outro candidato, especialmente para aquele que se predispôs a montar palcos redondos nos diversos concelhos para responder às perguntas das pessoas que o querem conhecer melhor. Prometer ensino obrigatório gratuito é ouro sobre azul, mas... a que custo?

Não somos o Dubai, não temos petróleo, nem diamantes, os orçamentos da Região não são elásticos, o contacto pessoal, abracinhos e sorrisinhos não geram riqueza, então... de onde virá o dinheiro para cumprir as borlas? É que nem é preciso ter dois dedos de testa para perceber que se aumentamos de um lado, temos que tirar de outro. Da onde, senhor candidato? Vai cortar onde? Ou vai pedir dinheiro a Lisboa? Se é para começar no chorrilho de promessas, ao menos que sejam consistentes e que se conte a história toda. É que para uns o copo está meio cheio. Para outros está meio vazio e às vezes o que apetece mesmo é partir o copo e acabar com as indefinições.

Sónia Silva Franco
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