E depois vem o resto do ano

Naquela altura não se contava tudo à mãe sobretudo quando o assunto era rapazes que olhavam e riam e diziam o que era suposto dizer. A minha mãe não era a minha melhor amiga, nem confidente, nem nada parecido.

07 Jan 2018 / 02:00 H.

O fim da festa sente-se na rua, que já não se pode com as luzes e os presépios, as gambiarras a piscar e aquela euforia na placa central. É por estas e por outras que sinto que sou cada vez mais a minha mãe, uma espécie de encarnação de manias e hábitos, uma versão 2.0 daquela senhora de meia idade com quem cresci. Tal como ela, não vejo a hora de arrumar o Natal dentro das caixas para o depositar na arrecadação e esperar que passe o ano.

É respirar fundo e voltar a vida de todos os dias e como eu gosto da vida de todos os dias. Eu sei, é de velha, mas é tão bom enrolar-se no sofá a ver um filme e adormecer ainda no genérico. Também é de velha e talvez não seja a melhor imagem pensar em alguém de pijama e meias a beber chá ou chorar com comédias românticas. Não é, mas faz bem arrumar os sapatos que apertam os pés e mais o resto que comprime a alma. A vida de todos os dias é o lugar de mais aconchego que existe.

Janeiro é isso, o regresso às coisas normais. As casas sem enfeites, as pessoas sem as simpatias da época, o mês da realidade em que voltam os exames, as consultas do médico, o trabalho. Ou isto são pensamentos que vêm à cabeça para esquecer que estou no Campo da Barca com uma convocatória daquelas que o programa de prevenção contra o cancro da mama envia a senhoras assim como eu, oficialmente na tenebrosa travessia da meia idade.

A meia idade é estar a responder a perguntas estranhas, enquanto penso na primeira vez que vim aqui fazer o raio-x aos pulmões e mostrar a reacção do teste da B.C.G. Este lugar agora meio vazio enchia por altura das matrículas. Sei que a minha mãe me trouxe numa quarta-feira dos bordados, deixou-me a guardar lugar na fila e foi fazer voltas. E sei que esperei e esperei até chegar à minha vez. Os rapazes mandavam piadas às miúdas, era a maneira de passar o tempo. Houve até um rapaz mais velho que se engraçou por mim, fiquei tão vaidosa e corada e tão agradecida pela minha mãe não estar ali.

Naquela altura não se contava tudo à mãe sobretudo quando o assunto era rapazes que olhavam e riam e diziam o que era suposto dizer. A minha mãe não era a minha melhor amiga, nem confidente, nem nada parecido. Se contasse fosse o que fosse vinha depois uma conversa de ter juízo e cuidado e mais uma carga de trabalhos e preocupações para três olhares, uns sorrisos e umas piadas de longe que certamente não passariam disso. O que havia de tímidos, acanhados e atados devia sossegar todas as mães.

E eu era das tímidas, mas lembro-me de ter ido para casa feliz, agarrada ao segredo de um rapaz ter olhado para mim. Nunca mais o vi, não sei sequer quem é, mas guardei a memória por mais de 30 anos. As memórias boas são um recurso para dias maus, quando é preciso respirar fundo. Eu penso no sofá e no aconchego que dá, no quintal cheio de sol da minha infância, no cheiro da canja ao sábado à noite, nos meus segredos de adolescente e de como tudo isso me abraça e ampara. Nos dias de azar, nos dias de sorte, em Janeiro e nos outros meses do ano.

Marta Caires

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