E depois é 25 e dia de festa e não há nada para fazer...

25 Dez 2016 / 02:00 H.

E depois é 25 e dia de festa e não há nada para fazer...

O silêncio, aquele silêncio sem os travões dos autocarros a guinchar na curva, aquele silêncio da vizinhança ainda a dormir invade a manhã de sol e céu azul. Da cozinha chega o cheiro dos bolos acabados de fazer e a casa tem o perfume do ananás dos Açores, respira-se um ar lavado. E eu deixo-me ficar um instante, só mais um bocadinho no calor da cama feita de novo, no aconchego das coisas que conheço e do meu quarto, que está como o deixei em Setembro, antes de fazer as malas para a faculdade.

A minha mãe não arrumou os livros, nem os papéis, nem as gavetas. O meu quarto sempre foi o meu reino, o lugar onde chorei os namoros desfeitos do liceu, onde imaginei viagens mundo fora seguindo as rotas do globo terrestre que o meu pai mandou vir das Selecções. As paredes guardam o meu coração acelerado depois do primeiro beijo, o peito a rebentar de orgulho por ter tido 100% a História e todas as vezes que fugi das discussões e bati a porta com estrondo. Está tudo aqui, por aqui e é bom estar de volta.

Eu sei de cor o guião deste dia. Sei que vou correr para a cozinha e roubar uma fatia de bolo ainda morno, que dá dores de barriga, mas sabe bem. E depois vou ao terraço ver o mar, as casas encosta acima, a curva do caminho e a fazenda do meu avô. O meu pai há-de aparecer para aquele abraço de dia de Festa, vamos falar da ninhada de coelhos acabada de nascer ou do presépio, que vai do chão ao tecto e tem um ribeiro feito de algodão. Depois há-de desaparecer fazenda adentro embrenhado pela terra e metido em si mesmo, naquele jeito de quem nunca conta tudo o que pensa.

Quase aposto que antes do almoço hão-de rebentar umas bombas debaixo da manilha e que um daqueles canecos de folha vai pelo ar antes de estarmos todos sentados à mesa. O meu irmão anuncia-se sempre assim, naquelas maneiras de sedutor, com um ar de malandro e a agilidade de um gato. A minha mãe perdoa-lhe tudo e até não se importa que mexa no presépio, troque a ordem das figuras, esconda o Menino Jesus e invente uma história de rapto como se fosse um filme de acção.

De mansinho – depois do almoço de canja e galinha assada, bolos e salada de fruta – a preguiça vai envolver a tarde e nós vamos com ela, abandonados na sala e de frente para o filme de Natal, cheio de boas intenções e mensagem, mas que custa a seguir com atenção. O meu pai adormece sempre e o meu irmão e eu nunca tivemos paciência para filmes que não fossem de aventura, daqueles em que o rapaz do filme sofre muito e ganha no fim. E é por isso que descemos caminho abaixo para a casa do meu avô para mandriar e girar em torno da minha tia Teresa, que tem as gavetas cheias de chocolates e a paciência de uma santa.

E mastigamos doces e salgados, mastigamos não ter nada de útil para fazer até o quarto da televisão encher com os de sempre: a tia Alice, o tio Humberto, a Ana, a tia Conceição, a tia Teresa, o meu irmão, o meu pai, a minha mãe e eu. A família a falar ao mesmo tempo entre sandes de galinha e mais canja, gargalhadas e a televisão ligada no telejornal para dar as notícias do Natal com neve e o das praias da Austrália. E é preciso ter o ouvido treinado para ouvir as conversas e o que passa na televisão, mas conseguimos entender quase tudo.

À noite, de estômago cheio, dou o braço à minha mãe e faço o caminho para casa, falamos de assuntos triviais, coisas nossas e, às vezes, do futuro. E eu penso no momento, em como é bom estar aqui, debaixo de um céu com estrelas, a caminho de casa. Visto daqui, dos meus 19 anos, parece tão certo, tão definitivo e tão eterno. A casa, o meu quarto, a minha mãe e este dia que sei de cor o guião. E é bom de estar de volta.

Feliz Natal

Marta Caires

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