E agora, Zé?

Humildade. Uma palavra tão difícil de entender e de praticar o seu verdadeiro significado. É preciso sair do tal pedestal imaginário, arregaçar as mangas e misturar-se com o suor da gente que vota. É necessário ouvir e sentir os problemas, as aspirações, os desejos daqueles que querem agarrar o futuro e confiar em alguém que poderá ser capaz de lhes dar essas condições. É preciso conhecer e chamar os Zés pelo nome!

04 Out 2017 / 02:00 H.

Vou chamar-lhe Zé. Tem família a trabalhar no governo e, por motivos óbvios (é preciso explicar que as pessoas ainda têm medo de falar?!) não quer revelar a sua identidade. Tem receio das represálias, até porque «isto está pior que nunca». Reformado há uns anos do sector público, o Zé desempenhou um papel importante nas lides daqueles que governavam. Acompanhou várias eleições, participou ativamente em todas as guerras partidárias, apoiou incondicionalmente porque acreditava numa bandeira, num líder, num projeto chamado Madeira. Encontrei-o na véspera do desaire eleitoral do PSD. Passeava à beira-mar com um ar agastado.

A idade não perdoa...

Após a cordial troca de cumprimentos, lá veio o desabafo: «sabe, estes são muito diferentes dos outros. Não ouvem ninguém, passam de nariz empinado, não sabem sorrir, nem conseguem sair daquele pedestal imaginário».

Hoje o Zé não participa em nada.

Confessa, amargurado, que ainda recebeu duas ou três chamadas impessoais do partido para que confirmasse a sua presença num comício e num jantar.

Não foi a nenhum.

«Eles só se conhecem uns aos outros. É uma coisa de grupo, não sei... O que sei é que os antigos foram desprezados. Então quando viram o meu nome na lista não me reconheceram?! Já não conhecem ninguém...»

A mágoa sentida vem acompanhada por um encolher de ombros e por uma declaração curiosa: «tenho falado com muitos colegas que ainda lá estão e digo-lhe que o sentimento é geral. Vamos todos votar no Cafôfo».

Mas... porquê, Zé?

A resposta está na ponta da língua e não deixa margem para dúvidas ou para erros de comunicação: «Estes não são humildes. Não sabem isso o que é...»

Os netos irrequietos puseram termo à conversa. Observo o Zé a afastar-se lentamente com um garoto de cada lado. Os miúdos sorriem e pedem para ir ao parque infantil. Provavelmente, no carro, vão ouvir as histórias fantásticas daquele avô que participou ativamente na construção desta Madeira, mas que hoje é um perfeito desconhecido daqueles que assumiram os destinos partidários.

Horas depois desta conversa reveladora, surgem os resultados, as festas, os pontos de interrogação e as exclamações. O povo, soberano, pluralista, escolheu os seus representantes e agora que bradem aos céus, façam mea culpa, batam no peito (mas com as duas mãos bem fechadas) aqueles que se atreveram, durante toda a campanha, em falar em «roubos»!

Numa sociedade democrática, quando o povo vota está a fazer a sua escolha e não a tomar de assalto seja o que for. Não é erro de comunicação, mas sim de interpretação.

«Exercendo o seu poder numa sociedade pluralista, o Governo sabe que ninguém toma as suas verdades por absolutas, que as suas opções não são indiscutíveis, que os seus atos não estão acima da crítica.» A frase é de Francisco Sá Carneiro, proferida em 1973, o fundador do mesmo partido que enfraqueceu a olhos vistos nestas últimas autárquicas. Um homem que não se escondia em erros de comunicação e que defendia que o «pluralismo político é condição essencial de aprendizagem da humildade, sempre difícil para quem exerce o poder, e também garantia de fiscalização atenta para quem é governado.»

Humildade. Uma palavra tão difícil de entender e de praticar o seu verdadeiro significado. É preciso sair do tal pedestal imaginário, arregaçar as mangas e misturar-se com o suor da gente que vota. É necessário ouvir e sentir os problemas, as aspirações, os desejos daqueles que querem agarrar o futuro e confiar em alguém que poderá ser capaz de lhes dar essas condições. É preciso conhecer e chamar os Zés pelo nome!

Não há erros de comunicação. Há falhas gravíssimas de interpretação. Os avisos surgiram de vários lados. Os alertas soaram bem alto. Algumas escolhas foram contestadas. A qualidade das mesmas foi colocada em causa por diversas vezes. Mesmo assim, imperou o incompreensível «orgulhosamente sós» de quem ouve apenas aquilo que lhe convém.

O desaire aconteceu e não foi por falta de aviso. Há que pensar, repensar, refletir e há, essencialmente, que baixar o nariz e voltar à génese de todo e qualquer movimento político: servir o povo.

Há, essencialmente, que saber separar os oportunistas manhosos e carreiristas do poder (os que sopram palpites e desenham estratégias duvidosas) daqueles que ainda sentem que podem ajudar a mudar o mundo, aqui, neste pedaço de terra rodeado de mar.

E a propósito de Sá Carneiro, aqui fica a explicação do fenómeno pelas palavras de Pinto Balsemão, proferidas em 1973: «Por outro lado, o País, animado pelos indícios de abertura dos anos 68 e 69, julgou, nos primeiros anos da X Legislatura, que a vida política ia mudar substancialmente. Para que tal sucedesse, eram necessários novos políticos, sem os vícios dos anteriores, mais puros, talvez, mais ingénuos, mas em quem fosse possível acreditar.»

E agora, Zé? Quem tem o pulso deste partido? Que peso tem verdadeiramente o líder nas escolhas e nas derrotas? Ou será que se deixou ficar refém dos meandros perigosos do poder e dos pseudo-poderosos?

Não basta fazer rolar cabeças “cinzentas”. Há que perceber o que é uma liderança. Há que assumir, sem medos e sem favores, o papel de líder e partir, de uma vez por todas, os tais pedestais imaginários.

Então e agora, Zé?

Sónia Silva Franco
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