Dos Partidos e da Televisão

Retenho, como mais importante, duas coisas: a inexistência de uma maioria absoluta, e 30% de respostas de quem não se revia nesses dois nomes

06 Fev 2018 / 02:00 H.

1. Hoje, por manifesta falta de espaço, o disco é “Misfit de Legendary Tiger Man; o livro “Maldito Seja Dostoiévski” de Atiq Rahimi qua ainda está ali para ser lido; e o filme “A Hora Mais Negra” de Joe Wright principalmente, pela brilhante interpretação de Gary Oldman.

2. O PSD lançou uma coisa que dá pelo nome de “Compromisso Madeira”, onde pretende levar o partido às bases (?) e ouvir a “sociedade civil”. Tenho uma enorme dificuldade em entender o que querem dizer os políticos que usam a expressão “sociedade civil”. Já em tempos escrevi nestas páginas (penso que vai para uns 20 anos) um artigo inteiro sobre este assunto. Mas que raio de coisa é uma “sociedade civil”? Não deverão fazer parte dessa dita cuja os partidos e os que exercem a política? Há agora uma “sociedade política” em oposição a uma que é “civil”? Perderam os partidos, e os políticos que assim pensam, a sua civilidade? Que Deus nos ajude!

3. O PSD lida mal com o que não percebe. O culto de poder que mantém há mais de quarenta anos faz com que a maioria dos seus quadros e militantes não perceba esta coisa da “ingratidão” das pessoas que agora dão claros sinais de os querer apear do poder. Eu também sou daqueles a quem a giga-joga de Paulo Cafôfo (prometer cumprir o mandato camarário para cerca de 15 dias depois dar sinal inequívoco de que o não ia fazer) desagrada solenemente. Não gosto desta política do vale tudo para ganhar eleições. Venha ele do PSD, venha ele do PS do “Me e do Mini-Me”, venha ele de onde vier. O que o PSD tem feito em relação ao Presidente da Câmara do Funchal, dá-lhe um enorme jeito. Tem tentado à exaustão diabolizá-lo e leva como resposta ou o desprezo ou a vitimização. De quando em vez “solta os cães” a falar grosso para não estragar ele o sorriso. E o PSD cai na asneira de responder do mesmo modo. Se há coisa que a dita da “renovação” já devia ter aprendido era que há um tipo de linguagem que os protagonistas têm que deixar de usar porque já não pega. Espera-se muito mais de Miguel Albuquerque que, quando quer, tão bem sabe ser empático. E é precisamente de empatia de que estou a falar.

4. Naquela que deveria ser a casa maior da democracia portuguesa os partidos da situação voltaram a negar a possibilidade de um debate aberto e frontal sobre o financiamento dos mesmos. Recusaram uma proposta do PAN para que fossem ouvidos partidos sem assento parlamentar e outras entidades que lidam com o assunto em questão. Exceptuando o CDS, os restantes partidos: PSD, PS, BE e PCP, comportaram-se como um verdadeiro cartel e votaram contra a proposta. O caldinho do costume denunciador de que, no que toca a este e outros assuntos, bem sabem remar todos para o mesmo lado. O lado obscuro e manhoso onde se dão tão bem. Direitos, liberdades e garantias? Então era isso!

5. O Bloco, esse “albergue espanhol” onde coabitam trotskistas e estalinistas em tão agradável convivência como se nada os separasse, acha que a eutanásia não deve ser referendada. O Bloco acha que aquele grupo de duzentos e trinta portugueses podem muito bem decidir sobre tão importante assunto pois o voto que os elegeu lhes confere plenos poderes para tudo. Para o Bloco a eutanásia é em tudo diferente da questão do aborto. E é claro que é. O que não é diferente e o modo como temos que decidir sobre isso. E aqui o “temos” tem a ver com todos os portugueses e não só com os iluminados que, na Assembleia da República, se acham acima de todos nós. Dizia Helena Pinto, na AR, em meados de 2000: “Não há um único argumento que sustente a posição do sistemático adiamento do Referendo ao aborto. Um único.” No passado dia 18 José Manuel Pureza rejeitou liminarmente a possibilidade de ser feito um referendo sobre a morte assistida. E está tudo dito sobre a coerência bloquista.

6. Nuno Artur Silva é um homem que respira televisão. É um Sr. Televisão. O Conselho Geral Independente (CGI), resta saber do quê, decidiu demiti-lo por pretensa incompatibilidade, denunciada por um grupo de idiotas acobertado por uma tal de Comissão de Trabalhadores (CT). Ao que parece o Nuno Artur (pessoa que conheço) é dono de uma empresa, a Produções Fictícias, que por sua vez é proprietária de um canal de televisão, o Q. O Nuno é efectivamente sócio e nunca o negou. Penso mesmo, correndo o risco de estar errado, que a PF foi prejudicada com a ida do seu mentor e gerente para a RTP. É que uma das coisas que ficaram na altura muito claras é que a empresa de Nuno Artur estaria proibida de fazer qualquer tipo de negócio com a televisão estatal. Negócios que fazia antes. O Nuno é uma pessoa séria. A CT e o CGI não o são. Criam e lançam sobre as pessoas suspeições que, se fosse comigo, teriam que provar em tribunal.

Foi sobre a batuta de Nuno Artur Silva que a RTP foi, calmamente, reocupando o espaço que é seu por direito no espaço dos canais generalistas portugueses. Provou que se podem aliar os conteúdos de agrado geral com a qualidade. A RTP está muito melhor, como canal de televisão, do que estava antes da sua entrada. Mas a CT não gosta destas coisas. É que elas dão trabalho e gerir o que é público como se fosse privado é lixado para quem só quer fingir que trabalha e vive às expensas de todos nós, os contribuintes, que sem o querermos temos que ser sócios daquela chafarrica.

7. “As pessoas apelam para que eu avance”, Paulo Cafôfo, a metade da equação “Me / Mini-Me”, em entrevista às páginas deste Diário. Ficam as perguntas: Quem? Quando? Onde? Como? Porquê?

8. E no PS Madeira foi tempo de Congresso. Do Congresso da consagração do “Me e do Mini-Me”. Porque o resto foi mais do mesmo ou coisa de pouca monta.

9. A sondagem do Diário perguntou às pessoas que entrevistou em quem votariam. Se em Paulo Cafôfo, se em Miguel Albuquerque. Retenho, como mais importante, duas coisas: a inexistência de uma maioria absoluta, e 30% de respostas de quem não se revia nesses dois nomes. Agora, e tendo isto em atenção, voltem lá a embandeirar em arco...

10. No dia 30 houve RASGO. Foi quem quis. O SCAT foi um espaço de liberdade e falou quem entendeu fazê-lo. E o resto são cantigas, faltas de comparência e anonimatos cobardes.

Nuno Morna

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