Descobre as diferenças!

Em 1980 e perante a situação catastrófica dos transportes aéreos, o Governo Regional decidiu fretar um avião para estabelecer ligações entre a Madeira e Lisboa. Em 2017, negoceia-se, em cima do joelho, um voo para estudantes...

13 Dez 2017 / 02:00 H.

Houve um tempo da nossa História, numa Madeira que ainda não era de ouro, nem pertencia ao melhor país do mundo em termos turísticos, onde a fome, a doença, as dificuldades e o sofrimento abundavam. Na época dos nossos bisavós, a vida não era fácil neste pedaço de terra no meio do Atlântico. O desespero e a vontade de singrar na vida, a nobre missão de matar a fome aos filhos e de assegurar o mínimo de conforto para a família, levaram milhares de madeirenses a abandonar, com o coração apertado, os seus parcos pertences e a desbravar o mundo em travessias marítimas perigosas e demoradas.

Nesse tempo difícil, não existia a definição, como conhecemos hoje em dia, de Estado Social. Os mendigos proliferavam, a miséria e a ignorância grassavam e as esmolas, donativos e até mesmo obras beneméritas em prol da comunidade faziam parte das responsabilidades sociais e até mesmo morais daqueles que eram mais abastados.

Em 1877, o presidente da câmara de Santa Cruz, perante a necessidade de ser ali construído um tribunal, não só fez a doação do terreno que lhe pertencia, como também suportou, com dinheiro do seu bolso, as despesas para a primeira fase da construção do edifício. Chamava-se Joaquim António Telles.

Quem é o senhor Telles dos tempos modernos?

Nesse mesmo ano e também no mesmo concelho, as obras do cemitério de Santa Cruz avançaram graças aos donativos de João Bettencourt Baptista e de Alfred Blandy.

Há quem diga que estes gestos não eram assim tão gratuitos. Numa discussão sobre o tema, ainda ouvi a seguinte sentença: «Eles contribuíam com obras e donativos, mas sugavam os madeirenses. Enriqueceram à custa dos madeirenses!»

Então e agora como é? Descobre as diferenças!

Houve um tempo na nossa História em que não existiam subsídios do Estado para manter empresas, associações ou instituições, o que obrigava a uma necessária elasticidade da imaginação daqueles que, com mais ou menos posses, tentavam sobreviver e até mesmo inovar e empreender numa ilha tão pequena e com tantas dificuldades.

Em 1878, o conde do Carvalhal ofereceu várias árvores e arbustos para o jardim do convento de S. Francisco. Em 2017, por exemplo, a Secretaria Regional da Agricultura ofereceu plantas endémicas da Macaronésia para serem plantadas nos jardins de uma empresa de transportes alternativos.

Na área da saúde, em 1880, o Governo louvou publicamente o visconde da Ribeira Brava pela elevada quantia que este colocou à disposição do ministério do Reino para a construção de um hospital na Ribeira Brava. O mesmo visconde que organizou festas e quermesses em Lisboa para angariar fundos para a construção do referido hospital.

«Eles contribuíam com obras e donativos, mas sugavam os madeirenses. Enriqueceram à custa dos madeirenses!»

Então e agora como é? Descobre as diferenças!

Num passado mais recente, em 1980, e perante a situação catastrófica dos transportes aéreos, o Governo Regional decidiu fretar um avião para estabelecer ligações entre a Madeira e Lisboa. Medidas que solucionaram o problema de centenas de passageiros que aguardavam transporte aéreo. Em 2017, negoceia-se, em cima do joelho, um voo para estudantes, gasta-se 7 milhões e meio num estudo sobre a ampliação do porto do Funchal (estava no programa eleitoral?), quando esse valor daria para fretar centenas de aviões e resolver o problema de outras tantas centenas de jovens.

E foi numa Madeira pitoresca, afamada pelos seus ares regeneradores, que recebemos os maiores elogios de visitantes ilustres de calibre internacional, desde estrelas de Hollywood, monarcas, escritores, artistas e tantos outros que por aqui passaram. Em pleno Século XXI, destacam-se os convites a pseudo vedetas de novelas de categoria duvidosa para promover o destino turístico.

Com bons ou maus exemplos, somos feitos, enquanto sociedade, de bocadinhos da nossa História. Houve a tendência de criar uma nuvem negra em certos períodos da nossa vivência. Passou-se a ideia de que durante um período mau, nada de bom havia a realçar ou merecia ser imortalizado. Errado! Completamente errado, injusto e hipócrita.

Numa sociedade moderna, onde os dinheiros públicos são usados e muitas vezes abusados, é preciso não esquecer que houve um tempo, na nossa História, em que existiam pessoas que se interessavam verdadeiramente pela causa pública, longe de imaginarem o estado de subsidiodependência a que chegamos.

Pessoas abastadas que construíam, a suas expensas, obras para servir a população, que ocupavam cargos em associações de beneficência e não ganhavam um tostão com isso ou até mesmo, nos primeiros anos de autonomia, abriam concursos públicos, mas asseguravam sempre grandes contrapartidas sociais para a Região.

«Eles contribuíam com obras e donativos, mas sugavam os madeirenses. Enriqueceram à custa dos madeirenses!»

Então e agora como é? Descobre as diferenças!

«A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Mas não vale a pena esgotar-se para compreender o passado quando nada se sabe do presente». A frase é do grande historiador Marc Bloch.

Sónia Silva Franco
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