Dar e receber

Não há como a rua para ver, conhecer e chocar com a realidade, em vez da perceção da realidade

11 Nov 2017 / 02:00 H.

Foi uma experiência única ter participado como voluntário no peditório anual da Liga Portuguesa Contra o Cancro, faz agora uma semana. Durante umas horas, um conjunto de várias pessoas do meio político, médico, jornalístico e desportivo foram desafiadas a percorrer as ruas do Funchal, para recolher donativos para esta notável instituição que há muitas décadas ajuda os doentes oncológicos e promove ações de sensibilização para hábitos de vida saudáveis. Quero aqui falar desse dia que não posso esquecer porque recebi mais do que dei. Recebi lições de vida para toda a vida. Dei aquilo que é meu dever enquanto cidadão.

A generosidade não tem limites, mesmo quando se tem muito pouco, como foi o caso de uma idosa que recebendo uma pensão baixa de viuvez, tirou da carteira 20 euros e meteu na minha caixa, segredando-me que tinha perdido uma filha na batalha contra o cancro. Ou aquele sénior de 84 anos que teve cancro de próstata e que contou os passos da sua cura com a alegria de quem ganhou uma nova vida. Ou, ainda, o daquela mãe, muito nova, que teve cancro de mama e que diz que o venceu porque não podia deixar os dois filhos menores por estes lados, sem o seu apoio. Historias de vida e de luta notáveis e de grande coragem. Senti-me mais pessoa naquele dia e, sobretudo, aprendi muito e quero repetir. Constatei que os que menos têm são os mais dispostos a dar e a contribuir para estas causas e que há gente que passa dificuldades para ajudar os outros. Mas, também, verifiquei que há muita indiferença em relação a estas instituições de solidariedade social que fazem o bem sem olhar a quem e que, em muitos casos, não recebem qualquer apoio do Estado ou da Região, e vivem destes peditórios e do voluntariado para exercerem a sua atividade. Assim, como registei que os mais novos, ao contrário do que se pensa, são sensíveis e solidários e que a estória da geração perdida não passa disso mesmo, de uma estória sem sentido. Pude, ainda, confirmar que, pese embora alguma retoma económica e consequente criação de emprego, há ainda muita gente sem qualquer rendimento e à espera de um posto de trabalho e de uma oportunidade para se afirmar na nossa sociedade.

Não há como a rua para ver, conhecer e chocar com a realidade, em vez da perceção da realidade, muitas vezes inquinada pelos números e as estatísticas e sem correspondência com a vida das pessoas. Deveria ser obrigatório os políticos, os governantes, os dirigentes da administração pública, descerem, periodicamente, à rua para, fora da euforia e da agitação das campanhas eleitorais, enfrentarem a realidade e ouvirem o que os cidadãos têm para lhes dizer, o que os preocupa e que opinião têm sobre os assuntos da comunidade. Estou certo que nem sempre a agenda dos políticos é semelhante à agenda das pessoas e daí a distancia que se vai acentuando entre eleitos e eleitores. Assim como estou convencido que qualquer governação seria bem melhor se auscultasse mais os destinatários das suas decisões.

A falta de medicamentos no Serviço Regional de Saúde, em particular os dos doentes oncológicos que às vezes ocorre, foi a principal preocupação que fui colhendo ao longo da cidade. A segunda, foi a queixa sobre as listas de espera para cirurgia, pois existem pessoas a aguardar há anos por uma chamada do Hospital. Curiosamente, ouvi muitas boas referencias ao pessoal médico, de enfermagem e auxiliar, já que, em muitos casos, são inexcedíveis, para obviar às faltas de material dos serviços. Estes dados valem o que valem, mas coincidem com o que pude testemunhar, este ano, durante o período de quase um mês no Hospital Central. Neste caso a rua expressa melhor que ninguém a realidade pura e dura. É por isso que quem quiser vencer as próximas eleições regionais tem que pensar e apresentar um programa para uma profunda reforma dos serviços de saúde e da segurança social, pois a isso obriga o estado do setor e o aumento da esperança de vida que levanta imensos desafios e exige outras respostas.

Precisamos de um novo Hospital, mas era importante mudar e melhorar os serviços de saúde existentes, desde a prevenção e cuidados primários, passando pelos cuidados hospitalares e acabando nos apoios e serviços que são prestados aos mais idosos. Obrigado à Liga por esta Oportunidade.

Escolhas

Quem?

O Padre Giselo Andrade tem a minha solidariedade. Pode ter errado, mas quem nunca o fez que atire a primeira pedra. Com serenidade ele e a Igreja saberão resolver a questão.

O quê?

O Radar Meteorológico da Região fica operacional no final do mês. Vamos ter previsões mais fiáveis e a tempo de avisar e proteger as populações. Foi uma das minhas causas quando estive na Assembleia da República.

Onde?

Nos monumentos e edifícios históricos do Funchal, atuais e antigos alunos da Universidade fazem visitas guiadas para angariar verbas para pagar as refeições de colegas carenciados. Extraordinário.

Quando?

Já há muito tempo que se fala na aprovação de um Estatuto do Cuidador Informal em Portugal, mas a lei nacional não ata nem desata. Penso que na Madeira podia dar um exemplo ao país.

Porquê?

Os madeirenses e açorianos quando se deslocam a Lisboa ou ao Porto, em trabalho ou por questões médicas e pernoitam num hotel, pagam uma taxa turística diária. Porquê?

Como?

Quando subires a escada nunca te esqueças de quem está a descer porque um dia estarás tu a descer e vais precisar da ajuda de quem sobe” - ouvido numa rua do Funchal.

José Manuel Rodrigues Deputado do CDS na ALM
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