Da falta de sorte
e dos sonhos

A minha mãe falava de aumentar a casa, fazer uma de sobrado, que ficasse como nova, com mobília bonita
e as mulheres
a darem para trás

08 Out 2017 / 02:00 H.

Não sou pessoa de sorte, daquelas que ganham sempre, nem que seja uma garrafa de uísque na festa da empresa. A minha sorte, quando aparece, vem com rasteira como da vez em que me saiu uma viagem de ida e volta a Lisboa e a agência exigiu-me quase 50 euros de taxas. Era só o bilhete, explicou a funcionária para acalmar a irritação que me subia pela cara fora que, de um modo geral, sou transparente quando me enfureço, quando me emociono, quando estou feliz, triste ou quando deito mão de uma mentira para me desenvencilhar.

Uma como aquela que contei à minha mãe quando perdi os 500 escudos para o bilhete dos Xutos & Pontapés e disse que me tinham roubado. Depois foi preciso explicar onde tinha sido, quem tinha sido, a que horas e por ai adiante num interrogatório que me fez perceber que, em casos como o meu, é melhor contar a verdade. Dá-se o mesmo com a sorte, é melhor assumir que todo o dinheiro gasto a jogar na lotaria, na raspadinha, no joker, no totoloto e no Euromilhões é apenas isso, dinheiro gasto.

De modo que não jogo, mas sonho como os outros todos, sonho muito com o que fazia se me saíssem os milhões todos. Ai uma casa aqui, uma viagem ali, ai uns carros e umas roupas e depois percebo que sou mesmo pelintra. Não tenho ideias para o resto do dinheiro, não faço ideia do que são esses milhões, nem que vida levam as pessoas ricas, as que têm esses milhões. Nem sequer tenho um plano para o caso disso acontecer, um daqueles como o que o meu pai tinha, que ia dar entrevistas na televisão e pagar umas rodadas de vinho seco.

Vá lá não dizer o que ouvia nas conversas das mulheres que vinham buscar bordados às quartas-feiras quando havia jackpot no totoloto. A minha mãe falava de aumentar a casa, fazer uma de sobrado, que ficasse como nova, com mobília bonita e as mulheres a darem para trás. “Ó dona Celina olhe que uma casa grande dá tanto trabalho a limpar”. E todas concordavam, a nenhuma ocorria que os ricos eram ricos e tinham empregados que limpavam, tratavam e resolviam. Isso era ser rico, mas não havia pessoas assim no Laranjal.

Beco acima ou caminho abaixo, éramos todos mais ou menos os mesmos, com mais ou menos, mas a mesma gente. As mulheres em casa, a esticar o dinheiro, os homens a trabalhar e bandos de miúdos a correr pelas fazendas e veredas, atrás de ninhos. A maioria nunca tinha falado ao telefone, uns não tinham água corrente, outros não sabiam o que era uma máquina de lavar roupa e nunca tinham visto uma torradeira. Ricos, com mansão e motorista, só na telenovela, mas aquilo era longe demais, noutro país e o nosso era como nós. Usado, lavado, gasto e remendado.

De modo que quem vem de um lugar assim não tem cabeça onde possam caber sonhos de muitos milhões, nem de poucos, diga-se também. Às vezes dou por mim a imaginar que sorte, sorte mesmo era um daqueles prémios da raspadinha que dão 2.500 euros por mês durante 10 ou 20 anos. Isso sim, já são contas que sei fazer, o resto atrapalha e confunde-me, não sou capaz de imaginar tanto luxo, tanta fartura, mas também não corro o risco. Não tenho sorte e nunca jogo.

Marta Caires

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