Criar, comunicar, descentralizar

Temos que criar e preservar a nossa herança material e imaterial. Envolver escolas e sociedade civil na procura e descoberta daquilo que é nosso, que nos pertence e nos pode projectar no futuro

04 Jan 2018 / 02:00 H.

2018 é o Ano europeu do Património Cultural. Isso significa uma oportunidade única para desenvolvermos uma série de práticas e iniciativas que nos puxem para uma aproximação a um dos vectores primordiais da nossa sociedade. A Cultura. E eu sempre ouvi dizer que as oportunidades não podem nem devem ser desperdiçadas. Quando se fala nesse âmbito, parece sempre ser algo de abstrato para muitos, coisa do passado que nos remete apenas e só para a nossa história sem aparente ligação ao dia a dia e as pessoas. Que não tem efeitos práticos nas conjunturas nem na qualidade de vida, que não “puxa carroça” não adianta nem arrefece. Sabemos que está ali e que é muito bonito de referir, que dá votos e fica bem mas que entra facilmente no esquecimento por não absorvermos nem sequer um pouco da importância que ela representa para todos nós. Normalmente é seguida de um ponto final. Nada mais errado.

A Cultura é passado, presente e é futuro. Está em nós, faz parte da nossa essência e é trâmite fundamental para o nosso crescimento e por consequência desenvolvimento. É arte e Lei, são os nossos princípios morais que nos definem, são os hábitos, a língua os nossos comportamentos e práticas sociais. O Turismo parte absolutamente imprescindível da nossa economia não pode ser indissociado da mesma porque quem se interessa por nós, nos procura e sente vontade de se deslocar até cá, vem sobretudo para descobrir e beber um pouco desse nosso património em que alias somos bem ricos e interessantes. O que significa que apoiá-la, estimulando e valorizando-a estaremos muito mais próximos de preencher os requisitos dos que nos interessa que venham, fazendo-os gastar o seu dinheiro que faz girar e sustenta a nossa economia.

Para isso temos nós que refletir e agir. Temos que criar e preservar a nossa herança material e imaterial. Envolver escolas e sociedade civil na procura e descoberta daquilo que é nosso, que nos pertence e nos pode projectar no futuro. A União Europeia definiu o Património como motor por perceber que esse pode ser um dos factores diferenciadores em relação a todos os outros Continentes. Por aqui existe diversidade, multi culturalismo. Essas valências precisam de ser exploradas e vividas. Parece-me a mim por isso que podemos e devemos ver o nosso Património Cultural como espaços caducos , que não se podem tocar, apenas olhar e que servem única e exclusivamente para nos lembrarmos do que já passou. Acho por isso fundamental dar vida a estes, pô-los ao serviço da comunidade, integrá-los nas ambições dos mais jovens para que possam desenvolver as suas aptidões culturais e criativas. No fundo dar-lhes uso e criar valor acrescido porque as coisas quando ganham vida , duram mais tempo, são mais felizes e preservam-se de uma forma mais cuidada e consolidada.

Temos pois de ser pro-activos mas também produtivos , temos que evoluir com a inovação e promover o emprego também através dela. É também de vital importância descentralizar. Não podemos conservar e promover apenas o nosso património nas grandes cidades. Ele tem que ser de todos e para todos. O sucesso desta iniciativa depende muito da quantidade e pessoas que ela abranja e tem que funcionar obrigatoriamente como catalisador para equilibrar e integrar. Nas aldeias e vilas este País esconde-se um património de valor incalculável que é premente dar a conhecer, capitalizar e cuidar. Se conseguirmos de alguma maneira chegar a todos, descobrir novos movimentos e talentos e quebrar essa barreira entre os que têm menos acesso e o Património já valerá a pena. A Cultura não pode ser tangível para quem mais tem e para quem vive no centro e intangível ou mais abstrata e inócua para os que vivem com mais dificuldades e mais afastados. A Cultura deve ser de todos e para todos. Oxalá!

José Paulo do Carmo