Cabalas & Cabaleiros

Mas no meio de tudo isto as pretensas declarações do Presidente da Câmara ao Ministério Público fazem-me espécie. Nessas declarações Paulo Cafôfo esclarece que não só não entende de árvores como também não sabe de tudo o que acontece na Câmara do Funchal.

09 Jan 2018 / 02:00 H.

1. Livro: “O Último Cabalista de Lisboa”, de Richard Zimler. A acção ocorre nos dias do massacre de 1506 quando foram mortos mais de quatro mil judeus só por o serem. A cobardia da monarquia que os não protege e o relembrar de um episódio negro da nossa história do qual a Igreja tarda em pedir desculpa.

2.Disco: só para vos dizer que se tiverem a oportunidade de deitar as mãos a “Songs of Experience” dos U2, fujam a sete pés!

3. Há pessoas que são daquelas que é impossível não gostar. O meu amigo Rui Martins é uma delas. Começo-o há mais de 30 anos. Fizemos vários trabalhos em conjunto. É ele o responsável por poderem ficar para a posteridade uma série de concertos dos ALMMA. Era parte da COM.TEMA, uma parte importantíssima. Aparecia nos dias das estreias sem avisar e perguntava-me com aquele ar cândido de bom gigante: “onde é que monto as câmaras?”. E fazia o que mais gostava: filmar! Grande abraço, meu querido amigo. Onde quer que estejas eles estarão mais ricos e nós mais pobres. E sabes que comigo podes montar as câmaras onde quiseres!

4.Marcelo Rebelo de Sousa lá foi operado e ainda a recuperar acabou com o regabofe da Lei de Financiamento dos partidos cozinhada na Assembleia da República. É bom saber que institucionalmente há quem tenha tino.

5. O Trump e o Kim Jong-Coisa continuam a guerra dos tamanhos. Agora é o tamanho do botão nuclear que pode dar cabo do mundo. O do presidente americano é maior do que o do ditador norte-coreano. Fico sempre com a ideia de que andam a medir outra coisa

6. Como creio no individualismo, sem ser egoísta, porque acredito que cada um de nós é uma realidade única e irrepetível e como tal fascinante, permitam que, de seguida, vos deixe com algumas coisas de que não gosto e com outras de que gosto. Não gosto de unanimismos, nem de predestinados, nem da arrogância do tudo achar saber, nem de gente miudinha, nem de mesquinhez e de mediocridade. Gosto da frontalidade, do argumento com o qual posso não concordar mas que sinto seguro, da vontade de bem-fazer, do pensar antes de falar, do saber concluir. Gosto da evolução e da dinâmica. Não gosto do imobilismo e do conservadorismo. Gosto do debate onde o ouvir é tão importante como o falar. Não suporto o diálogo de surdos e as ideias feitas.

7. Polémicas à parte, no primeiro derby do ano o meu Sporting não merecia o pontinho com que saiu da Luz.

8. Paulo Cafôfo, Idalina Perestrelo e um funcionário da câmara foram constituídos arguidos. Quem dá um mínimo de atenção ao que escrevo já deve ter notado que não concluo sobre coisas que à justiça pertencem. Obrigo-me a crer que é esta um dos mais importantes garantes da nossa vida democrática. Mas no meio de tudo isto as pretensas declarações do Presidente da Câmara ao Ministério Público fazem-me espécie. Nessas declarações Paulo Cafôfo esclarece que não só não entende de árvores como também não sabe de tudo o que acontece na Câmara do Funchal. Eu também não percebo nada de árvores nem espero que o edil seja especialista no assunto. Mas o Presidente é responsável pela gestão dos assuntos, de todos os assuntos, da Câmara. Obviamente que também não pode, por ser humanamente impossível, saber de tudo o que se passa na entidade que gere. Por isso delega, o que o torna responsável, em última análise, por tudo o que ali sucede. Chama-se a isso ter responsabilidade política.

E que fique bem claro na cabeça de toda a gente que um arguido não é um condenado. Certo?

9. Ainda em relação a Cafôfo não se entende esta coisa das eleições no PS. Agora acompanhou, em silêncio para a comunicação social, Emanuel Câmara numa acção de campanha no Porto Santo. Mudou de ideias em menos de um mês em relação ao cumprir do mandato que lhe foi democraticamente depositado pelos funchalenses em Outubro e não explica nada a ninguém. Sou dos que acham que toda a gente tem o direito de mudar de opinião sempre que o entender. Mas também acho que essa “mudança” tem que ser muito bem explicada sob pena de ser perdido o vínculo da “confiança”. Manda a ética e a moral que assim seja sob pena da total descredibilização dos agentes políticos. Este silêncio é absurdo e não se entende.

10. Alguém conseguiu acompanhar o debate dos candidatos ao PSD? Há aí alguém que possa achar que aquilo foi um debate? Tenho para mim que foi mais uma espécie de barrela, um lavar de roupa suja de onde não saiu uma ideia, o tratamento de um tema, um momento digno. É isto que o pretenso maior partido português tem para oferecer ao país?

11. Na restauração e alojamento ficámos a saber que o país precisa, por causa do “boom” do turismo, de cerca de 40 mil novos trabalhadores. O trabalho tem que começar a ser visto como um bem transaccionável. Assim sendo é só deixar funcionar a lei da oferta e da procura. Se há muito emprego e poucos que ocupem essas vagas, mais tarde ou mais cedo o empregador terá que abrir os cordões à bolsa e tornar as carreiras desta área apetecíveis tanto no aspecto remuneratório como em termos das condições gerais oferecidas. O que verdadeiramente me preocupa é a impreparação para ser empresário que tem a grande maioria do tecido empresarial português, principalmente ao nível das pequenas e micro empresas. Um empregado de mesa não é, obrigatoriamente, um bom dono de um café, um pedreiro não será, necessariamente, um bom empreiteiro. E até falo por mim, que nas poucas tentativas que fiz de ser empresário me revelei um enorme nabo. A formação antes de alguém se abalançar a abrir um negócio devia ser obrigatória. Gestão, marketing, publicidade, contabilidade, gestão de recursos humanos, etc., aumentariam a carga de conhecimentos de quem se abalançasse a ser empresário. E tínhamos todos a ganhar com isso.

12. “Whataboutismo” da semana: ah e tal e faz três anos que os atentados no Charlie Hebdo fizeram uma data de gente andar a dizer que era Charlie e depois não se preocupam com os atentados na Sbidéria e tal e andam aqueles coitados da Maturnia a passar fome e os outros de Catubalando que foram raptados e se eles são fanáticos era coisá-los todos e tal.

13. No dia 5 fizeram 50 anos. 50 anos. Em Praga nascia a esperança na redemocratização da Checoslováquia. Há 50, em Agosto, meio milhão de soldados soviéticos mataram o sonho da liberdade. 72 mortos e mais de 600 feridos, muitos deles com gravidade, escreveram o seu nome na colossal lista de vítimas do comunismo soviético. Aqui fica a memória e a homenagem.

Nuno Morna

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