As lágrimas não apagam fogos...

É preciso subir a fasquia e fiscalizar aqueles que elegemos. É preciso pressionar, exigir, denunciar e punir todos aqueles que não estão preparados, nem têm competência, para gerir os nossos destinos. É preciso não esquecer. É urgente lembrar e cobrar! É preciso não pactuar, nem fechar os olhos. E muitas vezes, é preciso não perdoar!

18 Out 2017 / 02:00 H.

Os números chegavam a conta-gotas. 27, 29, 30... Oiço as reportagens, as histórias, os dramas e o nó na garganta aperta cada vez mais até cortar a respiração.

Preciso gritar, respirar... chorar...

O pensamento voa imediatamente para aquela jovem grávida que nunca verá o rosto do pequenino ser que crescia no seu ventre. Pelo menos, nesta vida... Naquela que lhe foi arrancada pelo fogo...

As televisões mostram incessantemente as imagens da tragédia. Pessoas de todas as idades tentam desesperadamente salvar a vida e acautelar, da fúria das chamas, as posses de uma vida inteira de trabalho. Somos pequeninos perante a enormidade do inimigo, mas dentro da nossa pequenez encontramos valores tão altos que deviam fazer vergar os incautos, os imprudentes, os impunes.

A contagem... mais um...

O choque, a incredulidade, o coração apertado, a revolta, a indignação. Num curto espaço de horas, todos estes sentimentos assolaram grande parte dos portugueses que, refugiados no conforto da segurança, seguiam as notícias daqueles seres humanos pequeninos na estatura, mas gigantes na força de vontade, na força de viver!

Concentro-me nas lágrimas de quem sofre. As lágrimas de quem perdeu. As lágrimas de quem assiste, à distância, à destruição de seres humanos que são sangue do nosso sangue. As lágrimas de quem luta contra um inimigo impiedoso, cruel, devorador.

As lágrimas de quem se indigna com palavras frias e posturas estudadas. As lágrimas de quem pede cabeças e procura um culpado.

As lágrimas de quem se ofende com declarações despropositadas, desajustadas, patéticas, vergonhosas.

As lágrimas de quem está farto de assistir à destruição de um país, à abolição de valores, à falta de respeito pela Vida!

Observo as lágrimas de quem pede respostas para as mais de 100 mortes e embate na burocracia e morosidade dos estudos, das leis feitas pelos políticos, do sistema.

A contagem... mais um...

As lágrimas não apagam fogos.

Os pequenos sulcos que cavam a face não são suficientemente profundos para deixar marcas.

Ou será que são?

As vidas que se perderam este ano à conta dos incêndios merecem um grito de revolta. Não podemos deixar que estas mortes tenham sido em vão.

As lágrimas não apagam fogos, mas podemos fazer muito mais do que chorar. Basta de incúria e de impunidades!

Não podemos encolher os ombros depois de termos ido às urnas votar.

É preciso subir a fasquia e fiscalizar aqueles que elegemos. É preciso pressionar, exigir, denunciar e punir todos aqueles que não estão preparados, nem têm competência, para gerir os nossos destinos. É preciso não esquecer. É urgente lembrar e cobrar! É preciso não pactuar, nem fechar os olhos. E muitas vezes, é preciso não perdoar!

A nossa participação cívica tem de ser muito melhor do que até agora. Não podemos eleger pessoas que se preocupam mais com o carreirismo político e partidário do que com a missão para a qual foram eleitas. A missão de servir, apresentar soluções, resolver problemas, abrir caminhos para um futuro melhor. Não precisamos de coveiros, nem de “anjos da morte” portadores de anúncios sinistros. Precisamos de gente que nos veja como gente, como povo, como seres humanos que precisam de ser protegidos, mesmo que isso custe votos. Mesmo que isso implique a adoção de medidas impopulares, mas necessárias para o bem comum.

Nova contagem... impressionante!

Como é possível?

Como foi possível?

Sónia Silva Franco
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