Aquele jeitinho especial de ser

O cultivo da cunha foi adubado quase que naturalmente e a sua produção bate qualquer agricultor orgulhoso das suas viçosas plantações. Não foi necessário criar um Plano Estratégico para esta produção. Aliás, ela existe por si própria, tem uma capacidade extraordinária de se renovar e expandir, alimentando as bocas mais modestas e outras mais sôfregas.

31 Jan 2018 / 02:00 H.

Há um jeitinho especial de ser que tomou conta, a todos os níveis, do quotidiano da nossa sociedade. O olhar de esguelha para quem tem mais posses que o outro; o facilitar e até mesmo quebrar as regras só porque tal pessoa é conhecida e por isso pode e deve passar à frente de todos os outros; o abusar de certo e determinado estatuto para retirar proveitos em benefício próprio ou até mesmo incentivar a propagação rápida e folclórica do insulto gratuito.

Estes jeitinhos especiais existem em todo o lado. Não são exclusivos do privado ou da esfera pública. A certa altura da nossa vida, todos praticam ou todos recorrem às benesses dos facilitismos alegadamente inocentes e inócuos.

O cultivo da cunha foi adubado quase que naturalmente e a sua produção bate qualquer agricultor orgulhoso das suas viçosas plantações. Não foi necessário criar um Plano Estratégico para esta produção. Aliás, ela existe por si própria, tem uma capacidade extraordinária de se renovar e expandir, alimentando as bocas mais modestas e outras mais sôfregas.

Há uma diferença considerável entre ambas, mas que não retira a importância e o significado do dito alimento. Aquele jeitinho especial de ser tanto serve para quem pede para o filho ser colocado numa determinada escola fora da área de residência, como serve para utilizar cartões de crédito da empresa em benefício pessoal.

Tornou-se vulgar, prático e confortável recorrer a esta ferramenta que não olha a meios para atingir os fins e muitas vezes faz questão, num fechar de olhos, de ignorar os danos colaterais que provoca.

No local de trabalho há sempre jeitinhos à espreita. É o empregador que pede para que se façam cada vez mais tarefas que não fazem parte das nossas responsabilidades, nem vamos ganhar mais por isso; é a senhora toda bem arranjada que se acha VIP e tem sérias dificuldades em entender como funciona uma fila; é o senhor engravatado que vai espumando de raiva e, num ataque parvo de snobismo misturado com amnésia (poderá ser alzheimer), pergunta se sabemos com quem estamos a falar; é o homem das folhas de ordenado que acordou de mau humor e que decidiu trancar os vencimentos. É o político que decide meter a família inteira em determinados cargos e ainda tem o desplante de perguntar, com toda a naturalidade, se estaríamos à espera que desse trabalho à família dos outros. Enfim, um sem número de exemplos e cada um de vocês lida e conhece muitos outros.

Do outro lado do oceano, num Brasil colorido onde o jeitinho especial de ser assumiu proporções descaradas, há quem aponte o dedo aos portugueses por terem inserido este “cancro social”. Há quem defenda que Pêro Vaz de Caminha foi o primeiro corrupto conhecido da História brasileira, uma vez que termina a carta enviada a El-Rei D. Manuel, datada de 1 de maio de 1500, pedindo um favor especial para o genro corrupto e malfeitor, que estava condenado ao desterro.

«E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro, o que Dela receberei em muita mercê.»

Há demasiados Jorges e Caminhas instalados na sociedade? E porque será tão difícil resistir ao jeitinho especial de ser?

Recuando a 1361, quando D. Pedro I “O Justiceiro” deparava-se com um país devidamente organizado pelos seus antecessores, onde a centralização dos poderes régios continuava a dominar a vida monárquica do reino, tínhamos um país onde o rei aumentava os seus fiéis seguidores, controlando-os através da atribuição de títulos e de bens materiais. No final do Séc. XIII, os grandes senhores passaram a chamar-se nobres e fidalgos. Detinham terras e grandes casas senhoriais alimentadas pelo trabalho dos lavradores. Os nobres designavam-se os «bons de Portugal merecedores de mais honras que outros nenhuns».

Hoje em dia, vivemos na era da democratização do jeitinho especial de ser e, em maior ou em menor escala, são mais visíveis e descarados aqueles que se acham os «bons de Portugal, merecedores de mais honras que outros nenhuns».

Sónia Silva Franco
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