Ano novo

O ano novo seria parecido ao velho, viesse o bom e o mau, que tudo se iria tratar. Os sonhos, esses cá estavam, bem guardados e com os quais me entretinha em cima do terraço, a olhar os telhados da cidade.

31 Dez 2017 / 02:00 H.

Não me lembro de fazer promessas ou de comer passas para pedir desejos ou sorte. Lá por cima, no Laranjal, o ano mudava no letreiro de São Gonçalo, o fogo estoirava no céu e vinham uns abraços da família que acorria à varanda da minha tia Alice. Depois íamos todos à canja e comer sandes de galinha em pão de casa, enquanto a televisão passava o ‘show’ das Folies Bergère de Paris. As meninas de pernas longas da televisão deixavam os homens num silêncio cúmplice e, dessas noites de passagem de ano, lembro-me de ouvir a minha mãe a comentar que aquelas raparigas cá não tinham frio.

Sei que se ria e falava muito, em conversas trocadas e cruzadas, e que eu comia com aquela fome da adolescência. O meu estômago parecia não ter fim e eu despachava azeitonas, doces, canja e o que viesse à mesa e depois morria de vergonha por não caber nas calças de ganga das lojas. E nem assim fiz alguma vez a promessa de fazer dieta, a mania havia de chegar mais tarde. Naquelas noites do último dia do ano o melhor da festa era comer sem culpa e ouvir a discussão que o fogo tinha sido mais bonito mesmo que ninguém se lembrasse como tinha sido antes, no ano anterior e nos outros.

As primeiras notícias de baile com vestido comprido e sapatos de salto começaram a subir encosta nesses anos, que já havia vizinhos que iam aos hotéis e colegas da escola que não falavam do último do ano, mas da passagem de ano, o que era muito mais moderno e elegante. Quando ouvi contar aquelas primeiras histórias, até de namoros que começavam naquela noite, pensei que era extraordinário e que as histórias extraordinárias aconteciam sempre aos outros e às outras. Em casa da minha tia Alice, comia-se canja e via-se televisão. Eu nem sabia que as pessoas se podiam apaixonar ao som das 12 badaladas, assim a virar de um ano para o outro.

As pessoas apaixonavam-se nas festas da paróquia, entre o adro e os bazares da quermesse, e havia ‘flirts’ nas viagens de autocarro entre as miúdas do liceu e os empregados da lojas. Eu tinha visto acontecer, as conversas começavam na paragem e, ao fim de duas semanas, estavam a trocar números de telefone escritos no verso do bilhete. Ou na escola, entre o recreio e o jogo de futebol, quando eles implicavam e elas gritavam “estúpidos”. Quando elas diziam que eles eram estúpidos era limpinho, era esperar até os ver de mão dada.

De modo que passei ao lado dos bailes, de namoros elegantes, entre vestidos e fatos, e dos desejos, daquilo de comer 12 passas, de fazer promessas, de tomar decisões de ano novo e por adiante o que me terá poupado a muitas sensações de fracasso e livrado desta culpa por comer muito, doces e salgados, calorias atrás de calorias.

Na minha adolescência, a memória da fome estava ainda próxima, quase não havia gordos e até os gordos eram menos gordos. E não se exigia muito. O amor podia cruzar-se connosco na paragem do autocarro e a sorte dependia de quanto se trabalhasse ou estudasse.

O ano novo seria parecido ao velho, viesse o bom e o mau, que tudo se iria tratar. Os sonhos, esses cá estavam, bem guardados e com os quais me entretinha em cima do terraço, a olhar os telhados da cidade. Era mais ou menos assim, é mais ou menos assim ainda. Pelo menos para mim: sonhar muito, exigir pouco e aceitar o que chegar.

Bom Ano!

Marta Caires

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