A terra prometida

Naquele quotidiano sobrava pouco espaço para estados de alma
e do que me lembro as lojas não tinham letreiros tão grandes a anunciar saldos de 70%.

14 Jan 2018 / 02:00 H.

Os letreiros das lojas a anunciar promoções fazem parte de Janeiro, assim como os dias curtos, o frio e o sol que não aquece. Dos saldos sobram restos, umas blusas onde faltam botões, sapatos em tamanhos muito grande ou muito pequeno e poucos clientes. O mês é comprido, o dinheiro foi-se e os armários de casa estão cheios de roupa, ninguém precisa de mais. É o que se diz sempre em Dezembro. Não vamos comprar no Natal, nem nos saldos e todos os anos há umas peças que se juntam às outras, já apertadas nos cabides.

Os armários da roupa são a prova de como isto mudou, este viver os dias uns atrás dos outros, este quotidiano tão diferente da casa do Laranjal, onde há 30 anos dois guarda-fatos arrumavam a roupa de vestir, os cobertores, os lençóis e aquele conjunto de camisas de dormir e robes da minha mãe. Não era de usar, estava reservado para caso de doença e de hospital. A minha mãe tinha tudo preparado e quando saía levava a roupa melhor, não fosse ter um acidente, um azar que a mandasse para as urgências. Podíamos ser pobres, mas ninguém nos perdoaria a falta de brio.

O brio comandava aquela vida frugal. Havia a roupa de sair, a roupa de andar por casa e tudo se usava uma e outra vez até não haver remédio, nem maneira de mandar mais uma vez ao sapateiro. Sei o que me custou manter dois pares de collants em rosa choque e azul, que eram o último grito da moda. A paciência que foi preciso para conter os buracos com o frasco de verniz transparente da minha tia Conceição, sobreviveram até ao limite do brio orgulhoso que a minha mãe professava. Foi assim com a t-shirt do Snoopy, com a amarela que tinha escrito na frente ‘I Like It’ e o vestido curto de folhos.

Nos nossos dias existia o essencial. Lembro-me das três saias, das duas blusas aos quadrados, do casaco de malha herdado da minha prima Ana e dos dois pulôveres de angorá que usei durante grande parte do Inverno do meu 7º ano. E dos sapatos, uns sapatos que calcei dias e dias seguidos, havia esses ou os da chuva e os sapatos da chuva eram mesmo feios. A receita da roupa valia para a decoração da nossa casa, de paredes despidas e poucos móveis, para os livros, eram tão poucos que os li vezes sem conta até saber de cor as histórias da ‘Patrícia’, da ‘Carlota’ e da ‘Daniela’, heroínas de uns livros que a minha tia Teresa me comprou nas Paulistas.

Os restos de perfume, o primeiro batom, os brincos, o anel de ouro do crisma, o relógio e os fios de prata cabiam todos na gaveta pequenina da mesa de cabeceira, assim arrumados ao lado do elástico do cabelo e das contas de rezar, traziam-me sempre contas de rezar das excursões a Fátima e Lurdes. E toda a minha vaidade de adolescente estava ali, no meu quarto, dentro do guarda-fato e das gavetas, lavada, remendada e gasta. A minha mãe não se podia dar ao luxo de ter excessos, de comprar sem pensar, de comprar por ser barato, por estar triste ou apenas por ser muito bonito.

Naquele quotidiano sobrava pouco espaço para estados de alma e do que me lembro as lojas não tinham letreiros tão grandes a anunciar saldos de 70%. Saldos assim só no estrangeiro e toda a gente sabia que o estrangeiro era uma espécie de terra prometida dos adolescentes, onde se vendia discos, gel para o cabelo, batom cor-de-rosa, ténis de marca, perfumes e roupas como não existiam nas melhores casas de pronto a vestir e boutiques do Funchal.

Marta Caires

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