A Solidão Digital

Há também a chamada blogosfera onde hoje impera uma opinião sectária e respeitável, mas onde também se descarregam as frustrações e as difamações por detrás do anonimato e dos perfis falsos

16 Dez 2017 / 02:00 H.

Aparentavam andar pela casa dos 70 e falavam de um tema da atualidade depois de saborearem uma bica por entre as conversas soltas que emergiam de cada mesa daquele café histórico da cidade. Estavam tão compenetrados na conversa que ignoravam, completamente, quem os observava e quem os ouvia nas mesas do lado. Com ou sem insuficiência auditiva, a verdade é que falavam muito alto sobre o tal tema que apaixonava desde há alguns dias a opinião pública. De repente, um deles levantou-se, pegou nos sacos e disparou: “tenho que ir andando porque ainda vou fazer o almoço para os netos, prosseguimos a nossa conversa no Facebook”. O outro anuiu e pela sua cara viu-se que era normal trocarem informações nas redes sociais. Este é um dos muitos episódios que, diariamente, podemos constatar na nossa sociedade e que espelham o quanto a net e as redes invadiram e condicionam as nossas vidas. Este é um bom exemplo de como a net e as redes sociais podem quebrar o isolamento de muitas pessoas em particular dos mais velhos. O problema é quando a dependência dos mais jovens e dos mais velhos, ultrapassa os níveis do admissível e as pessoas não se conhecem cara a cara e, apenas, são amigos no Facebook, seguem outras no Instagram ou publicam no Snapchat imagens onde impera o momento e ao fim de algum tempo desparecem. É o mundo do aqui e agora, até ver!

Há homens e mulheres que medem a sua aprovação social e o seu estatuto através do número de likes que conseguem nos seus posts. Ao fim do dia, avaliam os gostos, o número de polegares para cima e os corações que conseguiram. É um assustador mundo novo aquele que estamos diariamente a construir, mas que é potencialmente perigoso para quem se abstrai do mundo real e entra na realidade virtual.

Nunca estivemos tão conectados e tão solitários nos tempos que correm. Nunca estivemos tão ligados e nunca estivemos tão sós. Uma contradição do outro mundo ou deste mundo que apalpamos, mas ainda não conhecemos totalmente. A solidão é a doença mais comum do mundo moderno e as novas tecnologias vieram acentuar as suas causas, sintomas e consequências. Um dos antigos lideres da gestão do Facebook garantia um dia destes que as redes sociais estão a destruir as bases da sociedade pois o que está em causa é a exploração das vulnerabilidades da psique humana. Sem sermos apocalípticos é necessário estarmos atentos.

É evidente que a internet e as redes sociais representaram um avanço tecnológico e, mesmo, civilizacional, indesmentível, mas é, igualmente certo, que trouxeram ou afloraram situações a que não estávamos habituados.

As vantagens da net e das redes sociais são superiores às desvantagens, por isso mesmo, importa atuar nestas últimas, evitando os seus efeitos e consequências. A dependência das pessoas e, em particular dos jovens em relação à tecnologia é preocupante. Basta andar na rua para constatar este facto e os estudos comprovam-no, já que um estudo recente indica que 25 por cento dos jovens portugueses estão viciados em tecnologia e 14 por cento são dependentes dos smartphones. É, sobretudo, alarmante, ver a quantidade enorme de pessoas que expõem as suas vidas nas redes sociais, sem pruridos nem complexos, num strip-tease digital sem fim, de estórias e de fotos, mas de consequências previsíveis a prazo, como alguns casos mediáticos o provam.

E depois, há também a chamada blogosfera onde hoje impera uma opinião sectária e respeitável, mas onde também se descarregam as frustrações e as difamações por detrás do anonimato e dos perfis falsos. E, depois ainda, há a influência que as redes têm sobre os jornalistas e o que estes reportam na base de notícias que se verificam ser falsas ou meias verdades.

Face a esta realidade, é importante que a família e a escola possam educar para o uso temperado das novas tecnologias e para a utilização racional das redes sociais, tendo em vista um mundo digital mais saudável e uma sociedade mais lucida e sensata. Nesse sentido, não é por acaso que diversos países já dispõem de serviços de alerta aos cidadãos sobre o uso das ferramentas digitais, nomeadamente a net, para que este mundo novo ofereça outras garantias e outras seguranças. Assim em Portugal, criou-se a Linha Internet Segura (800 21 90 90) para esclarecer dúvidas e aconselhar caminhos. O problema é que liguei na quinta-feira à noite e ninguém atendeu. Tanta tecnologia e estamos cada vez mais sós...

Escolhas

Quem?

Irineu Barreto. Todos contestamos a existência do Representante da República, mas a verdade é que de forma sublime tem conseguido marcar as suas posições e defender os interesses da Madeira na Região e junto do Estado.

O quê?

O Natal na Casa da Calçada no Museu Frederico de Freitas, ou como as famílias abastadas da ilha viviam a Festa. Uma exposição a não perder com entrada gratuita até meados de janeiro.

Onde?

Numa Igreja perto de si as Missas do Parto, essa peculiar e única manifestação de religiosidade madeirense que nos distingue enquanto povo que adora o Menino Jesus.

Quando?

Nestes dias uma fantástica exposição de mesas de Natal com toalhas de bordado Madeira no Salão Nobre do Teatro Municipal. Imperdível porque é a modernidade da nossa identidade.

Porquê?

Porque é obrigatório visitar o Palácio de São Lourenço nesta quadra com um programa aliciante. Nesta quarta-feira, há recital de guitarra, pelas 18h, com Francisco Lopes, acompanhado ao piano por Anikó Harangi.

Como?

O charter da TAP e do Governo Regional para os estudantes madeirenses virem passar a Festa à ilha é um penso rápido para tapar uma ferida profunda que o Governo da República tarda em cicatrizar.

José Manuel Rodrigues Deputado do CDS na ALM