A Santíssima Trindade

Ao fim de dois anos concluiu-se da necessidade “de mudar para que tudo fique na mesma”

14 Nov 2017 / 02:00 H.

1. A leitura da semana: “Os Novos Contos do Gin”, de Mário-Henrique Leiria. É tão bom deambular pelas páginas de uma escrita louca e, aparentemente, sem sentido.

2. Beck é um músico camaleónico, nunca faz dois discos que remotamente se assemelhem. Está aí um novo, um hino à pop. Dá pelo nome de “Colors” e é obrigatório ser ouvido.

3. Sempre que penso na questão catalã levantam-se-me umas interrogações.

O mesmo país que mostra tanta repulsa em cumprir com os tratados internacionais que assina e que reconhecem o direito dos povos à autodeterminação, o mesmo país que não toma a iniciativa cooperante de referendar a presença de uma sua região no seio do todo, é o mesmo país que de forma cobarde abandonou o Sarah Espanhol à sua sorte, vindo-se pura e simplesmente embora.

E o que dizer de Gibraltar? Que Espanha considera como seu apesar de já por duas vezes referendos terem dado como resultado uma esmagadora maioria aos que pretendem que o território continue a fazer parte do Reino Unido. A Espanha reivindica a pertença de Gibraltar e no entanto recusa-se a descolonizar as suas possessões no Norte de África.

E o referendo escocês? O que pensou a Espanha disso? Dessa aberração democrática? Ou da secessão da Eslováquia da Checoslováquia onde levava metade do nome?

A questão catalã chegou a um ponto onde o ridículo ombreia com a falta de vontade. O estado espanhol não reconhece ao parlamento catalão a possibilidade deste poder declarar a independência. Considera essa declaração uma ilegalidade. Mas depois o TC de Madrid (o grande culpado a par do PP deste imbróglio todo) vem declarar a nulidade dessa declaração. Sou só eu que acho ridículo declarar nulo o que não pode ser declarado?

Mais: se o centralismo de Madrid acha que os parlamentos ditos autonómicos há coisas que não podem fazer, não é um bocado idiota acusar alguém de sedição? Se o parlamento catalão não pode legalmente declarar a independência como é que se pode acusar alguém de cometer uma coisa que não podia cometer?

4. E, de repente: “pop”! lá salta Alberto João da toca. Com o enterro do fulgor renovador que tão bem foi apelidado de “renovadinho” por AJJ e “sus muchachos” e o advento de um certo tipo de neo-jardinismo sem Jardim, aquele que foi o quasi-perpétuo governante regional retoma as crónicas e declara preto no branco que não alinha em “geringonças” mesmo que regionais. Tudo mudou. Desenterrou-se o inimigo de Lisboa e o contencioso da autonomia. Sem levantar, ainda, muito a voz começou-se a tentar falar grosso para o Terreiro do Paço. O Secretário-geral do PSD declara-se de dedicação exclusiva ao partido deixando de ser Chefe de Gabinete do Presidente do Governo. Ou seja, ao fim de dois anos concluiu-se da necessidade “de mudar para que tudo fique na mesma”.

5. Na abertura da Web Summit, o seu fundador Paddy Cosgrave mandou levantar toda a gente de modo a que cada participante cumprimentasse três pessoas... O meu medo nestas coisas é que se entre no campo da religiosidade absurda. Será que estamos a assistir ao nascimento de uma nova religião? o Tecnologismo? ps: a COM.TEMA levou ao palco aqui há uns anos uma peça que dava pelo nome de “Choque Tecnológico” que alertava precisamente para estes perigos.

6. Fellaini, médio belga do Manchester United, coloca a culpa das suas más exibições e lesões nas chuteiras. Vou fazer o mesmo. Nunca joguei uma porra de futebol. Agora sei que a culpa era das sapatilhas... Malditas Sanjo!

7. Pedro Calado disse na Assembleia Legislativa Regional: “tenham paciência, mas o PSD vai ficar por aqui durante muitos mais anos”. Começo a me convencer do mesmo. Muitas vezes a habilidade de uns não é mais do que a inabilidade de outros.

8. Marcelo elegeu Maria Cavaco Silva como “a madrinha dos portugueses”. O Presidente da República fala muito, fala sobre tudo e sobre todos. Fala que se desunha. É um falastrão. E, às vezes, não precisa de falar porque não há nada para dizer. E o melhor é ficar calado. E esta vez, se era só isto que tinha para dizer, era uma delas. É que ao contrário das famílias as madrinhas escolhem-se.

9. Umas linhas sobre a paternidade de um sacerdote. O anacronismo de um homem (porque só eles podem ser padres) não poder procriar tem muito pouco de respeito a Deus, que se assim o quisesse, na sua eterna sabedoria, teria criado um terceiro género, os assexuados, para que estes espalhassem a fé e o império. Sou dos que procuram seguir, pecando muito, o que Cristo nos ensinou e não creio ser a Igreja, com raras e honrosas excepções, o seu farol e exemplo. O que devia ser tido como coisa natural assumiu foros de assunto obrigatório. E é assim que vamos.

10. A EasyJet não vê com bons olhos que só se pague o que a mobilidade obriga acertando depois a companhia o restante com o Estado. E vieram logo as indignações do costume. “Se não gostam vão-se embora que não fazem cá falta nenhuma”, foi o que mais se ouviu. Não podemos olhar para isto como se a EasyJet só transportasse madeirenses para a frente e para trás. Os seus voos trazem muito turismo. Deixo uma pergunta: se o leitor tivesse uma empresa com negócios com um Estado que é mau pagador e não cumpre prazos, quereria fazer negócio com ele? As companhias Low Cost, a TAP não é uma delas, funcionam muito com o cash flow. Dinheiro que entra e sai com muita rapidez. Ficar com uma data de dinheiro colado no tecto durante meses não as ajuda, bem pelo contrário. E essa é que é essa.

11. Para terminar a semana ficamos a saber que o mui selectivo jantar de encerramento da Web Summit teve lugar no Panteão Nacional onde estão os restos mortais de portugueses insignes. É caso para dizer que “se não podes ir à Web Summit a Web Summit vai até ti”!

12. Muito gosta a Geringonça de sacudir a água do capote. O despacho de Barreto Xavier, na altura Secretário de Estado de um governo de Passos Coelho, é uma verdadeira idiotice. Mas isto não justifica de modo algum o facto de ter sido alguém que num governo do PS autorizou esta porcaria. O que o país precisa é de um governo de gente madura e não de um governo de putos que passam a vida a dizer: “não fui eu, foi ele”. Já não há pachorra!

Nuno Morna

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