A máquina

“A máquina acordou.” Amor Electro

07 Jan 2017 / 02:00 H.

Se é que verdadeiramente esteve alguma vez a dormir, a máquina acordou. Acordou e está aí. Pujante, viçosa, pronta para durar e fazer o que lhe compete.

A Máquina tem pouco mais de quarenta anos e estende-se por todo o lado. Por todo o lado onde o laranjal deitou as garras. Na função pública, no dirigismo cultural e desportivo, nas Casas do Povo, etc. O aparelho é brutal e funciona, como diz o povo, que nem um sininho.

Apesar de alguns municípios e juntas de freguesia terem mudado de “dono”, não se pense que a máquina também mudou. Não mudou, nem adormeceu. Que o digam os autarcas que não provêm da “laranja mecânica”. Que reconheçam os escolhos que têm defrontado e contra os quais se batem todos os dias. Que digam como é que o que pensam em voz alta, e por vezes mesmo em voz baixa, chega tão rápido aos ouvidos de quem não deve. Que falem das ratoeiras e armadilhas que lhes são estendidas. Do ultrapassar de competências e do assumir determinações que vêm de fora. Do constante atirar fora do dever de lealdade, palavra que não consta do léxico desta gente.

A Máquina é um aparelho bem alimentado. Alimentado por anos em que era preciso cuidar “dos nossos”. Pô-los a trabalhar. Arranjar o que fazer a quem sustentava a cúpula. E os favores pagavam-se. E pagam-se.

A Máquina foi pacientemente montada durante 40 e tal anos. Uma máquina de menores. De burocratas e mangas-de-alpaca que vêem no papelzito o santo dos santos. São, salvo raras e honrosas excepções, os medíocres de outros medíocres que os precedem na cadeia alimentar.

Palavras como competência, saber, inteligência, emperram a engrenagem da máquina. É por isso que os competentes, os sábios, os inteligentes são dela rapidamente cuspidos.

Mas a Máquina tem também muitos pontos por onde se pode desmantelá-la. Se na mediocridade ela brilha, quando confrontada com a verdade fica fusca e trôpega. Na ânsia de mostrar serviço a máquina queima etapas, ultrapassa o determinismo da legalidade, faz jeitinhos e favores, pois é disso que se alimenta. É aí que, sem apelo nem agravo, se deve agarrá-la e espremê-la. Começa logo a guinchar, a acobardar-se, a alardear do seu desconhecimento das coisas, a assumir-se como coisa pequena e reles que é. E à volta é vê-los: os outros ratos a rir para dentro, achando que com menos um deles lhes sobrará mais “alimento”.

O mal não está no que a Máquina alimenta, está na própria. O problema não está nos criadores, mas na criatura criada.

O bom era um dia podermos cantar como nos ensinaram os Amor Electro: “A Máquina parou, deixou de tocar”!

Nuno Morna

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