A ‘maldita’ Saúde

08 Jan 2017 / 02:00 H.

Vivemos num pedacinho de território português que, em tempos, apregoou ter o melhor sistema de Saúde do mundo e arredores; ainda antes desses tempos terem caducado, os mesmos avalistas chegaram à conclusão que, afinal, o tal sistema era o financiador e instigador do caos, cujas consequências andam há anos a respingar para os desgraçados dos utentes.

A bandeira da Saúde, enquanto conquista autonómica, serviu para o antigo presidente do Governo Regional afirmar a sua liderança, pois ele ‘nomeava’ até chefes de serviço: uma vez para a prima da prima, outra para o familiar do outro senhor que andou na universidade com eles. Um tique mesquinho de quem, nas mais altas funções governativas, não parecia ter nada de mais prioritário para fazer na governação. Mas demonstrativo de poder total. Entretanto, mudou o governo, mas os mesmos tiques continuam.

O resultado está à vista: péssimas decisões, projectos e pessoas dessincronizados, falta de recursos para prioridades, rios de dinheiro para megalomanias, maus profissionais a atrapalhar quem quer trabalhar, especialidades e especialidadezinhas para remunerações e caprichos privados, utentes anónimos a penar. Vai tudo bater ao mesmo: é preciso mais dinheiro, seja para necessidades efectivas, seja para superficialidades. E como a Saúde não permite palpites, como estes aqui enumerados, não se pode nem discutir, porque com a vida das pessoas não se brinca – um argumento que dá para tudo.

Talvez falte coragem e determinação para ouvir, fora dos circuitos habituais, outras teorias. Que podem levar a outras soluções, talvez mais eficazes e menos dispendiosas, mesmo que acarretem outros problemas menores e secundários. Porque não ponderar a ‘devolução’ da conquista autonómica e integrar a administração da Saúde deste pedacinho de terra no sistema nacional? Faz algum sentido, hoje, esta desintegração?

Para quem gosta de transformar uma simples e rotineira mudança de um director clínico num facto político que abala uma governação, então é melhor deixar como está. Quem se preocupa com a sua Saúde e a dos outros utentes, tanto se lhe dá se a prima do primo é a chefe, ou se o médico ‘é dos nossos’ ou se é ‘cubano’ do continente...

Agostinho Silva