A heresia da Revolução

As instituições e organizações políticas e governamentais são especialmente vulneráveis a ambientes onde a competência cede lugar ao carreirismo e o mérito é substituído pela fidelidade

03 Fev 2018 / 02:00 H.

O povo diz que “cada um é para o que nasce”, acrescenta que “não se deve dar o passo maior que a perna” e finaliza questionando: “quem te manda a ti, sapateiro tocar rabecão?”. Tudo isto para denunciar a ambição desmedida que campeia em vários setores da nossa sociedade, com muitos a quererem lugares para os quais não têm vocação ou competência. Nos últimos anos, o nível de exigência em certas profissões e funções baixou de forma drástica, quer nos lugares de nomeação quer nos cargos de eleição, o que levou à superioridade da mediocridade sobre a meritocracia. “Se aquele Trump pode ser Presidente da maior Nação do Mundo por que é que eu não posso suceder ao Marcelo? - esta tirada irónica que ouvi um dia destes pela cidade, dá que pensar e revela como os maus exemplos são interiorizados e como a incompetência tem alastrado dando lugar à ambição de outros incompetentes. Hoje, muitos entendem que podem desempenhar determinados cargos, mesmo que não possuam as aptidões para tal, porque sim; porque fulano já lá esteve e porque depois de lá estar, logo se vê...

O Princípio de Peter e os seus ensinamentos que, genericamente, indicam que há pessoas com ambição que são promovidas ou ascendem a lugares até atingirem o seu nível de incompetência e não conseguirem executar bem o trabalho, deveria ser ensinado nas nossas escolas, pois este é um dos problemas mais graves do país e da região.

Todos conhecemos exemplos de pessoas na política, na economia, nas empresas, nas escolas, nos serviços públicos e privados que não têm preparação para os lugares para os quais foram nomeados ou eleitos. E isto não tem nada a ver com ter ou não habilitações académicas, pois a questão, muitas vezes, é a falta de vocação ou de experiência. Chegam ao sítio por favor ou por caciquismo, como se pode ver nos aparelhos partidários. Também, é sabido que há pessoas muito bem formadas, mas que não têm qualquer aptidão para chefiar ou liderar, enquanto outras com menos currículo são bons gestores de pessoas e projetos. Um bom técnico não dá necessariamente um bom gestor e um generalista pode ser um bom líder.

As instituições e organizações políticas e governamentais são especialmente vulneráveis a ambientes onde a competência cede lugar ao carreirismo e o mérito é substituído pela fidelidade. Mesmo em Democracia - o pior dos regimes tirando os outros - a eleição não é uma garantia de que são escolhidos os melhores. “Um Homem um Voto” - é um bom principio, mas quantas vezes é adulterado pelas circunstâncias? Nos tempos que correm, há mesmo quem defenda que as eleições estão a dar cabo da Democracia. Parece um paradoxo, porém os resultados das eleições presidenciais norte-americanas, do referendo para a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, do referendo na Catalunha e a emergência de populismos e nacionalismos radicais, validam, em parte, esta heresia sobre o voto nos nossos regimes.

A Democracia, como a conhecemos hoje, tem os dias contados. A internet e, sobretudo, as redes sociais, com o seu mediatismo e imediatismo, com verdades e mentiras, estão a alterar a forma de fazer política e a relação entre eleitores e eleitos e entre governados e governantes. Os tempos são turbulentos e recheados de manipulação, desinformação e propaganda que criam terreno fértil para o desencanto, a frustração e a revolta de muitos cidadãos que não se sentem representados nos sistemas políticos, e que por impulso são levados a acreditar ou, pelo menos, a protestar por via do voto em forças excêntricas, populistas e radicais. A evolução tecnológica veio facilitar estes fenómenos e as redes vieram dar voz ao clamor das pessoas e incendiar o espaço público. É uma revolução em curso, e como em todas as revoluções, não se sabe como vai terminar. Não é alarmismo é apenas realismo e o combate a estas ameaças passa por aprofundar a participação dos cidadãos na vida pública. A Democracia não se pode reduzir ao voto nas eleições, antes exige que se encontrem mecanismos que os cidadãos usem para influenciar decisões que lhes digam respeito. Se as pessoas escrevem intensamente, apaixonadamente, nas redes sociais sobre a política e a governação porque é que depois participam tão pouco na vida pública? A resposta é complexa, mas talvez a explicação esteja na falta de instrumentos para essa participação. Facilitar a iniciativa legislativa dos cidadãos; valorizar as petições ao Parlamento; fomentar os orçamentos participativos; realizar referendos regionais e locais; introduzir o voto eletrónico; incentivar mais consultas públicas sobre leis e planos estruturais; tornar frequentes os contatos entre eleito e eleitor e aprofundar a transparência da administração pública, são algumas medidas que permitiriam inverter este processo de afastamento dos cidadãos da res publica. E por fim, mas em primeiro ligar, importa criar condições para nivelar por cima e trazer os melhores da sociedade para a política e para a governação da região e do país.

Escolhas

Quem?

A associação Xarabanda pelo extraordinário trabalho que tem feito pela cultura na Região e, em particular, pela música tradicional das nossas ilhas.

O quê?

O livro “A revolta de 1959 em Timor-Leste” do madeirense João Luís Gonçalves e que repõe alguma verdade sobre onde começaram as guerras do país que terminaram na descolonização.

Onde?

Em Santana, este domingo, a Festa dos Compadres, o genuíno Carnaval madeirense, com boas sátiras ao nosso quotidiano. A ver, a ouvir e a gozar. Vale a pena.

Quando?

Dia 15, às 21 h, no Teatro Municipal, a exibição do documentário “Colonia e Vilões”, do realizador Leonel Brito. Um pedaço da nossa história que ainda tem resquícios na ilha.

Porquê?

Os irmãos Roberto Cunha e Manuel Cunha foram dois grandes escultores madeirenses. O primeiro moldou o barro e o segundo o marfim. Os Museus têm algumas peças, mas porque se mantêm esquecidos?

Como?

As Câmaras estão a invadir áreas que são da responsabilidade dos Governos, como a educação e saúde. Como é que depois haverá dinheiro para cumprirem as funções que lhes competem?

José Manuel Rodrigues Deputado do CDS na ALM
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