A herança

O mundo regressava ao eixo da rotina e nada de estrondoso acontecia em Janeiro, Fevereiro e por aí fora até ser Dezembro outra vez.

01 Jan 2017 / 02:00 H.

A minha mãe deixou-me tudo: o tom da pele, as ondas do cabelo e as manias. Tenho todas e só lhes dei um toque pessoal e moderno, que agora ninguém se livra do telemóvel e do Facebook e eu não sou militante do partido dos inteligentes que pairam por aí com ares de superioridade e também não gosto de pregar moral. De modos que isto não é para mandar indirectas ou para alguém, algures, enfiar o barrete. Eu só quero falar da minha mãe e das manias que me deixou de herança, uma delas vem a calhar por estarmos ainda na Festa.

Ou pelo menos na Festa segundo o costume madeirense seguido lá em casa com respeitoso rigor. A minha mãe geria o calendário, o que é o mesmo que dizer que mandava em tudo. Não era só no Natal que mandava em tudo, do que se vestia ao que se comia, mas a ocasião tornava-a ainda mais poderosa, acrescentava-lhe alegria e entusiasmo, ficava feliz e gritava ordens, lamentava-se por não ter mais ajuda e dizia-se sozinha naquela casa grande, cheia de recantos, portas e quartos, jardins e hortas. A minha mãe decidia as arrumações, o lugar do presépio e do pinheiro, o almoço e os bolos.

E descansava na semana entre o dia de Festa e o primeiro do ano, cirandando de um quarto para o outro para mostrar aos primos do tio João a lapinha e a gambiarra a piscar na árvore. Depois corria a tirar do armário a bandeja e os copos que iam, a tilintar, para a sala das visitas, onde ficava um cheiro a cigarros e a bolo de mel. A minha mãe fazia a despesa das conversas: perguntava pelos que não estavam, lembrava histórias antigas, ria-se e acompanhava até ao portão, sempre cheia de assuntos e as visitas a olhar para o relógio, que a Celina gostava de falar e nunca tinha pressa.

De manhã, enquanto eu tomava o pequeno almoço na mesa da cozinha, confessava-me os planos para o ano novo, ia ser tudo diferente. A casa, os sofás, um móvel, uns sapatos e parecia tudo possível naqueles dias em que o letreiro luminoso em São Gonçalo estava prestes a anunciar mais um ano. A minha mãe entusiasmava, dava gosto ter planos e pensar em metas, mudar para melhor naquela semana de roupa nova e cheiro a lavado no quintal era fácil e simples. Eu podia comer menos e emagrecer, podia estudar e ter 20 a todas as disciplinas, podia e teria, era querer, não ia custar.

Estes propósitos sobreviviam ao fogo, ao momento mágico da mudança de ano no letreiro de São Gonçalo e duravam por mais uns dias de Janeiro até à minha mãe ter aquele ataque repentino de quem estava farto de ver árvore de Natal, já fazia confusão a gambiarra a piscar e era tempo de desmanchar o presépio e meter o Menino Jesus dentro da caixa de sapatos. As boas intenções arrumavam-se no armário, aqueles planos brilhantes pareciam quase trabalhos forçados e talvez fosse melhor menos ambição, menos entusiasmo, menos grandeza.

A minha mãe voltava a ser a minha mãe, o mundo regressava ao eixo da rotina e nada de estrondoso acontecia em Janeiro, Fevereiro e por aí fora até ser Dezembro outra vez. Os nossos sonhos encaixavam na vida possível. O que não havia era escusado e era dessa matéria que se faziam os nossos dias com a minha mãe ao comando, a mandar em tudo, tão lutadora como caótica, tão capaz de sonhar e de viver com o que se arranjava. Ela era assim e foi mais ou menos isto que me deixou de herança.

Bom 2017!

Marta Caires

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