A gordinha

19 Ago 2018 / 02:00 H.

Lembram-se daquele amigo de infância sempre cheio de fome, que comia bolos enquanto o diabo esfregava um olho e depois ficava a olhar para o vosso gelado? Todas as vizinhanças por ai fora, em cada ladeira, beco e caminho, tinham um espécimen desses. Um assim maior do que os outros e que dividia as piadas com um outro infeliz, o azarado do “caixa de óculos” com quem partilhava a falta de jeito para tudo o que era importante como saltar muros, subir às árvores e descer escadas sentado em cima de uma tábua, aquela onde se passava sabão azul para escorregar melhor.

Não há quem tenha esquecido essa figura que acabava sempre a correr atrás dos outros no jogo da “apilhagem” e engolia em seco quando, de longe, ouvia alguém gritar “lá vem a baleia”. Eu não esqueci, mas, se calhar, terei mais motivos dos que outros já que lá por cima naquela curva do Laranjal a gorda era eu. E não era bom por várias razões, todas diferentes. A roupa das lojas não me servia de maneira que vinha para casa com os tamanhos de adulto e era estranho, mas o pior era cair quando se ia em expedição à fazenda e à ribeira atrás de rãs e ninhos. Ou quando se inventavam aqueles desafios que o último a chegar era tonto, palhaço e burro.

Mas eu ia a jogo sempre, nem que fosse para resolver pela força que alguma serventia tinha de ter aquele tamanho todo que não me permitia vestir roupa de criança. E por cada “gorda” vinha o troco mesmo quando me apetecia chorar, que não era justo ser assim no meio daqueles trinca-espinhas que nunca, mas nunca tinham fome. O que era a modos que tão extraordinário como o teletransporte do “Caminho das Estrelas”. Pelo menos parecia-me esquisito que tomassem colheres de medicamentos para abrir o apetite e que estrebuchassem para comer o almoço e o lanche, para comer o que quer que fosse.

Eu cá não me fazia rogada. Ia o almoço, o jantar, os lanches e, pela tarde, vasculhava os armários atrás dos pacotes de broas das visitas, do chocolate de culinária e as passas de deitar nos bolos. A minha quota de fruta, fiambre, iogurtes, gelatina e do quer que fosse de comer desaparecia em menos de um fósforo. Eu tinha fome, muita fome e depois ficava a olhar para a parte do meu irmão, que nunca tinha pressa de comer, demorava quase uma tarde a comer um gelado e geria um chocolate durante uma semana. Isso sim eram maneiras, dizia-me a minha mãe que aí pelos meus 11 anos me levou ao médico dos diabéticos não fosse aquela vontade toda acabar em doença.

O que tornou tudo ainda mais injusto, aquela obrigação de comer de duas em duas horas, sem direito a doces, nem sequer a meia laranjada. A fome roía-me por dentro e eu não entendia a razão de me ter calhado aquilo de ser a gorda. O meu sonho era comer e ser magra, mas percebi cedo que tal não era possível e o karma de ser a gordinha acompanhou-me a infância e a adolescência. Entre a fome e magreza, eu escolhi comer e a verdade é que parte das minhas melhores memórias desses anos são de comida. A primeira vez que provei uma pizza, os cachorros quentes a nadar em manteiga nos Ilhéus e os bolos da Penha de Águia no intervalo das aulas no Girassol.

Um dia, sem médico dos diabéticos e sem dieta, a fome, aquela fome primordial, abandonou-me. Tinha 16 anos e foi o primeiro Verão em que usei biquíni e não tive vergonha de atravessar o Lido de uma ponta a outra para comer uma waffle com chantilly. Foi tão bom sentir que era igual aos outros.

Marta Caires

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