A gente nunca conta com as saudades

Quando chegava a Setembro já eu estava farta de tudo. De ler, da praia, do calor, de casa, das tias, da minha mãe e do meu irmão.

03 Set 2017 / 02:00 H.

Em Setembro já não havia quem aguentasse as férias, nem o Lido, nem dormir até tarde, nem aquele aborrecimento que fazia a terça ser igual à quarta e, não fosse a missa ao domingo, os dias da semana seriam sempre iguais. Sei que a ideia de ter três meses de férias parece romântica agora que as pessoas reclamam tempo de qualidade e colocam fotografias no Facebook a mostrar que o encontraram.

Eu não sei bem o que é tempo de qualidade, mas cresci com tempo de sobra, com horas, dias e meses que demoravam a passar e não era fantástico. A minha mãe estava sempre ali, por perto, a ditar ordens, a impor regras, a mandar lavar a loiça e a pedir que fosse apanhar roupa. Eu fazia de surda, a ver se escapava. O que nunca acontecia, a minha mãe tinha ideias fixas, não era de desistir.

O tempo era muito, mas nunca me pareceu que fosse bom ter o meu irmão a moer-me o juízo com assuntos filosóficos ou provocar-me por causa das camisas inventadas por mim e mandadas fazer na dona Deolinda no Verão em que meti na cabeça que haveria de ser estilista. O resultado não foi brilhante. Eu percebi sem precisar das piadinhas do mano que usava gel no cabelo e o cabeção dos casacos levantados.

As tias também não ajudavam, eram na verdade uma extensão da minha mãe e daquele mundo de mulheres sobrava a minha prima Ana que, aos domingos à tarde, me deixava usar maquilhagem e perfume. O primeiro perfume que usei foi dela, tirei com uma seringa e, por instantes, vislumbrei o futuro onde seria bonita, magra e sofisticada. O que também não aconteceu exactamente assim, só que ter tempo e pouco que fazer acaba sempre por nos confundir.

O melhor daquelas férias sem fim era ler no quintal, na sombra das laranjeiras e com o Pepe a dormir em cima do terraço, mas até isso tinha um senão que estragava tudo. Eu gostava de ler, lia tudo o que apanhava, mas havia poucos livros em casa de maneira que, na falta de melhor, li várias vezes os mesmos até os saber de cor. Também havia o cinema, os filmes no Teatro e no Casino, que eram outros quinhentos e obrigavam a pedir licença à minha mãe. E a minha mãe fazia-se cara, acho que de vingança por eu me fazer de surda.

Quando chegava a Setembro já eu estava farta de tudo. De ler, da praia, do calor, de casa, das tias, da minha mãe e do meu irmão. O que eu queria mesmo era ver a turma, o horário, comprar os livros e os cadernos e meter-me no autocarro para as aulas, sempre era mais animado do que ficar pelos cantos a bocejar e a sonhar que quando fosse grande, bonita, magra e sofisticada ia encher os dias de coisas para fazer.

Ia ser uma aventura, da qual não faria parte esta história de tempo de qualidade, nem estas tardes em que agradeço o silêncio e descanso em sossego. Na vida da mulher que eu ia ser não entravam as saudades da voz da minha mãe a chamar por mim lá na nossa casa do Laranjal, onde desejei tanto que as férias acabassem, onde me senti a última das miúdas e onde fui muito feliz. A gente nunca conta com as saudades.

Marta Caires

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