A emersão do iceberg

... parte do sucesso do seu país devia-se ao facto de não terem dado ouvidos aos organismos internacionais, especialmente à Comissão Europeia, que recomendavam a aplicação de medidas de austeridade para suportar a recuperação económica

19 Mai 2017 / 02:00 H.

A Islândia é a pátria daqueles loiros a quem Portugal não conseguiu ganhar no Europeu de futebol. Os mesmos que uma vez terminados os jogos faziam uns cânticos engraçados e motivadores, com encenação e urros à mistura, para e com os seus adeptos. Os mesmos que agora, no festival da Eurovisão, através do seu júri e dos seus telespectadores, deram doze votos à nossa canção. Que acabou meritoriamente vencedora. Pontuação máxima nos dois casos.

É uma ilha do Norte da Europa com cerca de trezentos e vinte mil habitantes. Mais uns cinquenta mil do que a Madeira. No entanto é um país. E isso faz toda a diferença.

Um dia, essa pequena nação piscatória, quis ser uma potência financeira global e a loucura colectiva levou-os rapidamente do fictício ou aparente sucesso à bancarrota.

A crise, lá como cá, rebentou em 2008 e envolveu os três principais bancos. Todos a obrigarem intervenção, estatizando ou garantindo o seu controle por autoridades de supervisão. O governo nacionalizou todas as instituições financeiras privadas. Os islandeses chegaram a acumular dívidas até 850% do seu PIB! A coroa, a moeda nacional, desvalorizou 80% em relação ao euro. Em dois anos o Produto Interno Bruto baixou 11%. O desemprego duplicou chegando a atingir uns 11,9% pouco comuns por aquelas bandas. Aquela região caiu numa profunda recessão.

Houve necessidade de pedir resgate e empréstimo ao FMI. O programa de ajustamento terminou em 2011, três anos depois.

Logo nesse ano a economia iniciou a recuperação e regressou ao crescimento. Dando os primeiros passos para se afastar da crise.

Naquele espaço insular vive-se muito contando com o turismo e com a exportação de peixe, principalmente o bacalhau. Por exemplo a actividade económica que leva gente a visitar aquele território, alcançou subidas regulares na ordem dos 15 a 20% nos anos que se seguiram.

E tem dados actuais interessantes e a merecer reflexão. Face aos crimes cada vez mais violentos que, infelizmente, vêm acontecendo por cá é curioso constatar que, no caso deles, a estatística só refere um homicídio no ano transacto. Outro apontamento tem a ver com a percentagem de consumo extremamente baixa de álcool e drogas entre os adolescentes. Vale a pena estudar o que nos parece ser um exemplo a ter em conta.

Já recentemente vi na capa de um jornal nacional uma referência à emigração de jovens quadros portugueses para aquele destino. Não tive oportunidade de ler o artigo, mas só pelo título dá para perceber a apetência por um país que está de novo por cima e a apostar em quem tem competência e qualidade. E lá vai a nossa juventude destemida tratar da sua vida. E que se lixe o frio.

Entretanto, e de volta ao assunto principal, já em 2015, o então presidente islandês, Ólafur Ragnar Grimsson, eleito sucessivamente desde 1996 até 2016, visitou Espanha e teve a ocasião de, em conferencia de imprensa, afirmar que parte do sucesso do seu país devia-se ao facto de não terem dado ouvidos aos organismos internacionais, especialmente à Comissão Europeia, que recomendavam a aplicação de medidas de austeridade para suportar a recuperação económica. Sublinhou ainda que no caso da Islândia a UE se equivocou e deveria retirar conclusões sobre a crise e a recuperação encetada.

Hoje aquela república nórdica tem uma dívida controlada, 68,5% do PIB, provavelmente a menor taxa de desemprego no Velho Continente, 3,1%, e evolução económica superior à média da União.

Se bem estamos lembrados, foi por ali, naquela ilha que, entre nós europeus, primeiro se entrou em crise. E de maneira estrondosa. É inspirador estar a vê-la ressuscitar, de forma airosa, dando uma lição de que se pode cair e levantar de novo. Basta dar um tempo e ter gente capaz a puxar a carroça, como diz o povo.

João Cunha e Silva
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