A biblia made in São Vicente

Sejamos realistas. A Bíblia e o Código Penal de 1886 que sancionam o adultério da mulher com a pena de morte e uma simples multa

05 Nov 2017 / 02:00 H.

“Juiz Joaquim Neto Moura cita Bíblia para justificar violência doméstica sobre mulher adúltera“ (DN. 24.10.2017).

1. O chinfrim do homem e da mulher madeirense em redor do acórdão do Tribunal da Relação do Porto da autoria do meritíssimo Juiz Desembargador Joaquim Santos Moura – é para rir. Um acórdão de violência domestica que diz que o “adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem” ou que “uma mulher que comete adultério é uma pessoa falsa, hipócrita, desonesta, desleal, fútil, imoral” não merece censura alguma dos machos madeirenses. Merece aplausos.

2. Sejamos realistas. A Bíblia e o Código Penal de 1886 que sancionam o adultério da mulher com a pena de morte e uma simples multa – mesmo o Corão da Arabia Saudita que resolve o assunto com apedrejamentos em praça pública - não estão revogados na Madeira. A civilização masculina madeirense, independentemente da classe, idade, condição social, credo politico e religioso classifica a mulher que dá uns coices extramatrimoniais como “puta” e glorifica o homem que sacode o pipi em casa alheia. O adultério feminino na Madeira é punido em legitima defesa com uns valentes sopapos, ao abrigo do art. 69.º do Código Penal de São Vicente.

3. São Vicente will be forever São Vicente. O Meritíssimo Juiz desembargador Joaquim Neto Moura – detalhe esquecido pelo Conselho Superior de Magistratura e pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género – tem no seu currículo vitae uma passagem como magistrado no Tribunal da Comarca de São Vicente entre os anos de 1996 e 1999. Ora, sabe V. Exa. o que o meritíssimo juiz Joaquim Neto Moura avistava do seu gabinete desse tribunal? Avistava a Câmara Municipal e a Repartição de Finanças de São Vicente. Um imposto de selo na sua formação profissional.

4. Traduzindo. Avistava a minha querida Élia a entrar na Repartição de Finanças de São Vicente de mini saia e botas altas – no vocabulário moralista madeirense é vestimenta que provoca e justifica uma violação - e a sair toda desengomada de braço dado com o Humberto Vasconcelos então presidente da Câmara Municipal de São Vicente. Dias havia que, depois de uma estadia prolongada em “Broxelas” em reuniões RUP-RUP como “assistente permanente” de Alberto João Jardim, ponha as cuequinhas a secar num edital á porta do tribunal com o seguinte aviso: fechada para obras. Esta é, pois, a raiz do contencioso moralista que o meritíssimo juiz desembargador Joaquim Neto Moura tem com o adultério e a violência domestica. Os avistamentos de São Vicente. Absolvido.

5. Versículos de Números 18 do livro de Números da Bíblia: “Comam-na como algo santíssimo; todos os do sexo masculino a comerão. Considerem-na santa.” Corpo de Cristo.

António Fontes
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